Série Arte Fato:
O uso de entorpecentes provavelmente é tão antigo quanto o homem. Não é difícil imaginar os primeiros humanos se deparando com alguma frutinha psicodélica, talvez um cacto, enquanto procurava uma nova caverna mais segura e com mais alimento disponível. Ou se preferir, que seja pela fermentação de frutinhas guardadas sob o sol escaldante da savana. A questão é que as alterações de consciência são velhas amigas do ser humano e fizemos com ela um laço interessante através do qual é possível alcançar uma relação peculiar com a realidade. Identifico na psicologia das toxicomanias duas vertentes que, na minha opinião, deveriam conversar mais a fim de aprofundar o conhecimento sobre a questão. Há teóricos e pesquisadores que adentraram pelo que eu chamo de linha psicodélica da compreensão das adições e os da linha alcoolista.
A linha alcoolista, mais antiga e conservadora, é especialista em descrever as relações que os usuários crônicos constroem ao seu redor e ao longo de suas vidas. É desta linha também que vieram as técnicas mais amplamente conhecidas de intervenção em drogadicções. Mas como o próprio nome já indica, esta linha tende a generalizar as relações de dependência tomando como modelo a dependência alcoólica. Por certo, esta é a forma mais comum de dependência, a mais conhecida do ser humano (pelo menos aqueles das terras do meio - África, Europa e Ásia). Hoje, com nossa água potável tratada e encanada, talvez fique um pouco difícil acreditar nisso, mas o vinho e a cerveja eram bebidas muito mais acessíveis do que água potável e seu consumo já foi mais seguro também, especialmente antes de aprendermos a ferver a água antes do consumo e lavar bem o vasilhame para armazená-la longe dos insetos e outros animais.
Foi na década de 60 que a linha psicodélica ficou famosa por produzir muitos estudos e experimentos (vários de confiabilidade bem duvidosa) voltados para a compreensão dos alucinógenos. Isso permitiu uma descrição detalhada dos efeitos variados de diferentes substâncias psicoativas. Para compreender a relação de um indivíduo com sua droga de escolha e para que essa compreensão tenha algum resultado efetivo na intervenção terapêutica, é necessário avaliar o "local" e as "condições" da atuação da substância no cérebro e suas consequências imediatas sobre a visão de mundo do indivíduo estudado. Suas pesquisas aproximaram-se mais de detalhar essas relações. Explicitar os efeitos de cada substância, traçar o modo de utilização, descrever os comportamentos associados ao uso pontual e crônico, excessivo e moderado, tudo isto foi, de certa forma, possibilitado pelos movimentos oriundos da década de 60 que deram voz ao delírio, quer seja pela pesquisa das drogas, ou pela exploração da própria loucura. O movimento anti-manicomial começou com psiquiatras que em vez de medicar, aplicar eletrochoques ou lobotomias, preferiram escutar o que o louco tinha a dizer. Isso trouxe incríveis avanços no tratamentos destes distúrbios.
Com isso tudo, o que quero deixar claro é que cada substância atua de uma forma peculiar sobre o cérebro. Se você tomar um anti-ácido, não vai melhorar da dor de cabeça, certo? Cada substância tem um modo de utilização específico. Por isso não passamos mertiolate no olho. Cada substância exige instrumentos e ambientes específicos. Não se faz uma sessão de acupuntura usando garfos dentro de um vagão de trem. Cada substância desencadeia comportamentos específicos. Bêbados não andam em linha reta. Some à conta o efeito do grupo e da cultura e estaremos um pouco mais próximos de nosso objetivo.
Sabemos, por exemplo, que o álcool favorece a desinibição, mas por si só isto não é o bastante para compreender porque algumas pessoas se transformam em seres muito diferentes quando bebem demais. Há também o reforço do grupo, a crença na desinibição, a desculpa da amnésia, do descontrole, tudo isso é respaldado e transmitido pela cultura. A família do bêbado também tem um papel a desempenhar nesta trama, pois o cotidiano traz consigo expectativas comportamentais que influenciam a relação familiar. Toda a sociedade está implicada no estilo de vida do alcoolista. Ou de qualquer outra dependência. Mas o que produz um dependente? Sem compreender a resposta para esta pergunta, não conseguiremos chegar no ponto em que a droga encontra a arte.
Se por um lado, como desenvolvemos no post "Arte fato II", a personalidade do artista repousa em frágeis laços com a realidade, laços que dependem do olhar do outro para se sustentarem; o toxicômano tem laços fortes demais, entretanto, escassos. A toxicomania se aproxima muito do que Freud descreveu como neurose obsessivo compulsiva. Há uma supervalorização de alguns laços, alguns sentidos pessoais específicos que norteiam suas decisões. Essa supervalorização segue a mesma direção que o olhar do outro, mas em um sentido oposto. O artista forma laços com as coisas mais simples, tudo pode ser um objeto de seu amor, sua atenção e intenção. Para não perder-se e afundar na excentricidade, ele apoia-se no outro e busca referências para reforçar os laços mais importantes culturalmente e "normalizar-se". O toxicômano tem uma carência de diversidade, como se toda a energia que o artista aplica em seus laços estivesse condensada em meia dúzia deles na toxicomania. Há a mesma quantidade de energia, mas os canais de circulação são muito mais escassos. Se no artista sobra imaginação, na personalidade dependente falta.
Imagino que você deva estar se perguntando por que eu estou falando de viciados em drogas se eles são tão diferentes do artista. Bem, os opostos se atraem. É por termos diferentes relações possíveis com diferentes substâncias e respaudos culturais, que o toxicômano nos serve tão bem para compreender a arte.
A escolha de uma droga depende diretamente dos laços que o indivíduo deseja "afrouxar". Notamos na maioria dos alcoolistas, por exemplo, uma rigidez excessiva dos laços de identificação de gênero. Traduzindo, são em sua maioria sexistas. Interessante apontar que o álcool é uma droga que atua diretamente sobre o comportamento e o desempenho sexual das pessoas e o excesso pode levar muitas vezes a episódios de impotência. O tabagista em geral é muito ansioso. O maconheiro, levemente paranóico, vive preocupado com a opinião alheia. O cocainômano é o estresse e a procrastinação encarnados num corpo só. Os opiáceos remontam o gozo solitário e normalmente encontramos o vício em pessoas cujas noções de limite não foram bem desenvolvidas, pessoas impulsivas. (Deixo aqui um compromisso de escrever depois especificamente sobre os alucinógenos como o LSD, a mescalina, o cogumelo e afins, bem como sobre o crack, pois eles implicam outras condições muito mais complexas que não vêm ao caso agora.)
E o artista? O artista se aproveitará exatamente destes efeitos diversos para encontrar reforços para outros laços que não interessam ao outro que lhe apoia. O artista explora os efeitos da droga, muito mais do que seria explorado por eles. Por não precisar afrouxar seus laços, por estar habituado a transitar sobre o limite da loucura, por ter aprendido a saborear as sensações e extrai-las do próprio eu quando bem entender, dificilmente veremos um artista toxicômano no sentido clássico. Aqui você me dirá: "Alto lá! E os heróis do Cazuza que morreram do overdose, hein?" Então eu vou te pedir calma. Os artistas pós-Vietnã não se enquadram nesta descrição. Quando eu chegar nos alucinógenos trabalharemos estes casos.
Continuando, as drogas têm um papel muito mais de "estimulante de sensações" para o artista. É fácil encontrar referências quase divinizantes ao vinho, ao ópio e, mais dispersamente, a tudo quanto é psicoativo imaginável nas mais diversas artes nos quatro cantos do planeta. E é claro que encontraremos artistas que sucumbiram ao vício, pois não podemos negar que o uso cotidiano de determinadas drogas levará inevitavelmente à dependência física. Mas é menos frequente do que entre as pessoas "comuns", assim como é incomum dizer que um determinado "xamã" está viciado no cachimbo da paz e fica pelos cantos fumando escondido em vez de "trabalhar". Isso porque o uso, mesmo que diário, está inserido em um contexto ritual que o delimita e interrompe o processo de dependência. O mesmo acontece com o artista que muitas vezes usa o psicoativo para produzir. Devo frisar aqui que o que caracteriza a dependência é seu fator contra-produtivo, seu resultado incapacitante e debilitante. Sem isso, não é possível falar de adicção.
A própria produção artística é o que salva o artista da dependência. Daí dizer que ele explora mais a droga do que o contrário. O artista produz sem drogas e escolhe utilizá-las como via alternativa quando acha interessante. O toxicômano deixa de produzir para drogar-se. Entendido isto, temos clarificada a relação utilitária entre a produção artística e o uso de entorpecentes. A flexibilidade sensorial e de auto-percepção do artista são os pontos chave para compreender sua não-adicção, posto que não há, no caso deste, a imposição do uso sobre a vida social. Mas há momentos na história da arte que ela própria sucumbiu ao vício e vimos nascer e morrer levas de artistas que apesar de produzirem, claramente eram dominados pelo abuso. No próximo post tratarei destes momentos. Nos vemos lá!

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