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As crianças amam a tecnologia, as escolas não.

 
Pense em uma rede de escolas onde você aprende a pensar cientificamente com Sagan, Dawkins e Tyson interagindo com centenas de outros estudantes. E depois você vai aprender história e geopolitica da Idade Média jogando um "hot seat" do Medieval - Total War com seus colegas no qual cada um é um povo e vocês precisam tentar manter a história como aconteceu mesmo para depois compartilhar com outros grupos seus resultados. Então você vai assistir um filme sobre os índios do Xingu e as demarcações de terra no Brasil de 2012 um pouco antes de ir aprender a dançar com músicas sobre a nova gramática, ou se preferir, antes de fazer um passeio virtual pelos maiores museus do mundo com informações detalhadas sendo enviadas diretamente para o seu video game portátil ou seu óculos de realidade aumentada. Como se isso não fosse o bastante, quando você chegar em casa você poderá fazer seus exercícios online enquanto debate com seus colegas de todas as escolas associadas de sua cidade. O conteúdo é apresentado o tempo todo, conforme a demanda. Você escolhe os temas do dia, organiza a demanda com seus colegas, verifica a escola onde o conteúdo estará disponível e vai lá ter suas dúvidas expostas para o debate. Os assuntos serão apresentados conforme a demanda dos estudantes, a escola fica funcional o dia inteiro durante todo o ano e os alunos têm direito a 90 dias de folga para usar como quiserem (excetuando ausências justificadas). Você mantém a presença obrigatória e o processo de socialização, mas usa a tecnologia em seu favor para expandir os caminhos da aprendizagem e trazer de volta a participação livre dos estudantes.
As crianças estão profundamente interessadas na tecnologia e negar o poder deste interesse é ridículo. Os pais e mestres destas crianças não cresceram nesta realidade informatizada e parecem desculpar-se inteiramente por causa disso, mas é imperativo adaptar-se. As crianças nascidas depois da década de 70 cresceram praticamente abandonadas em um mundo virtual "em construção" com os mesmos problemas de um mundo real em construção. Eles estavam construindo este mundão para hoje. Crescemos brincando em terreiro de obra, onde um tijolo poderia cair em nossas cabeças a qualquer momento. Nos expusemos a muuuuita coisa que nossos pais sequer sabiam que existia e quiçá de graça! Porque deixaríamos nossos filhos sozinhos no centro da cidade sem ao menos aconselhá-los? Muita coisa aconteceu até que "Eles" começassem a fazer leis sobre a internet e a TV começasse a alertar sobre os perigos do mundo virtual. Ninguém se importou, por três décadas, com a confecção de um novo guia de "criação de filhos" ou de educação. Apesar disto,  acabamos aprendendo sozinhos.
Mas mesmo que tudo tenha ido bem para as crianças das décadas de 70 e 80, o mesmo não aconteceu com as da década de 90 e depois. Durante os anos 90 novas tecnologias de digitalização converteram milhares de livros em arquivos digitais e isto tudo foi lançado de uma vez só no mundo virtual. Tínhamos toneladas de informação e péssimos mecanismos de busca oriundos da década de 80. As crianças dos anos 70 e 80 aprenderam a revirar a internet atrás da informação, mas, com o surgimento dos mecanismos de busca do Yahoo e Google, as crianças ficaram muito preguiçosas. Se não está na primeira página, não existe. Aliando a isto a ferramenta de preferências da busca do Google que agrupa suas buscas em categorias e direciona sua pesquisa conforme seus interesses prévios, temos um rsultado catastrófico. Se você é uma adolescente que adora frequentar páginas de revistas teen e sobre celebridades, quando procurar por assuntos sérios a busca tenderá a mostrar mais notícias sensacionalistas do que de uma pessoa que frequenta sites de cunho científico, por exemplo. O mesmo acontece com as propagandas que aparecem para você. O que era uma ferramenta pensada para facilitar o acesso à informação na verdade não só deixou as pessoas preguiçosas, mas aumentou a estupidez uma vez que todos já são preguiçosos demais para ir além da primeira página.
As crianças de hoje não estão fazendo um bom uso desta ferramenta incrível que a humanidade inventou. Eles não estão compreendendo o poder desta ferramenta, nem seus pais, nem seus professores. Está nas mãos de quem aprendeu a aprender sozinho mudar esta triste realidade. Os pais destas crianças mal sabem como usar um e-mail e seus avós ainda estão de luto pela morte das enciclopédias de papel. Nós podemos simplesmente ignorar estas crianças e deixá-las para trás, atrasando por mais uns 50 anos a chegada de mudanças reais? O planeta poderá nos sustentar por tanto tempo da forma como estamos nos comportando? Como você gostaria de passar os seus últimos anos de velhice no planeta? Em uma sociedade organizada, governada pelo pensamento racional e onde todos participam da produção do bem comum não apenas para a humanidade, mas para toda a vida na Terra? Ou em um lugar onde a estupidez e a corrupção dilapidaram o bem comum tirando gradativamente de nós a vontade e os meios para mudar?

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