O que está por trás da definição da palavra família? Quais são as necessidades humanas às quais esse tipo de associação responde? Qual a função social da família? Qual é sua evolução histórica? Como a cultura e a família se relacionam? Lançaremos mão de conhecimentos da antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, biologia e medicina para tentarmos adentrar um pouco mais nos meandros deste fenômeno que não tem nada de tipicamente humano em uma série de textos sobre o tema.
Não é novidade que outros animais vivem em grupo e mantêm hierarquias e relações de parentesco. Elefantes, golfinhos, baleias, orangotangos, gorilas, macacos prego, lobos, abelhas, formigas, gaivotas... A vida em grupos organizados não é uma invenção humana. Há, por outro lado, uma infinidade de animais solitários que só se encontram para acasalar. Sendo assim, qual é o ganho evolutivo da vida em sociedade? Já dizia o ditado, antes só do que mal acompanhado... Mas apesar de todos os males, nós, humanos, desejamos avidamente o convívio social. Na mais completa solidão sonhamos o outro, deliramos como o náufrago de Tom Hanks e seu grande amigo Wilson, a bola.
Senão, vejamos. Para começo de conversa, não temos pelos. Já imaginou dormir sozinho em uma caverna escura e sem portas em uma noite de inverno sem lua em plena era glacial?! Desde que surgimos, há uns 200 mil anos, só o frio quase nos extinguiu umas três vezes. É um bom motivo para andar sempre em grupo. Fora isso, já convivemos com belos e poderosos caçadores, como o tigre dente de sabre, que tinha uma dieta rica em carne tenra. Leões, crocodilos, cobras, aranhas, rinocerontes, com essa pele fininha, esse sangue fácil e esse corpo quentinho, até um reles mosquito é capaz de nos fazer um grande estrago epidêmico!
Nem vamos falar então da tal da água parada. Mentira, vamos sim. Estudando de perto os cuidados que judeus e palestinos desenvolveram por trás de seu conceito religioso de impureza especialmente no que se refere à contaminação da água (item escasso na região onde vivem) e do vasilhame que a conserva, podemos notar que a água, em última análise é vista sempre com muita suspeita. Sem conhecimentos básicos de higiene e em ambientes como a savana e o oriente médio, a água disponível nem sempre é exatamente potável. Um problema real ainda hoje em países como Quênia, Etiópia e Somália é a disenteria causada por consumo de água não tratada.
Somos então pelados, fraquinhos e saborosos. A fogueira foi um achado e tanto. Espantou o frio e as feras. Deixou a comida mais macia, permitindo uma sobrevida um pouco maior depois de perder os dentes. Criou a roda de histórias antes de dormir. O fogo estreitou os laços e alargou as lembranças. Foi o fogo que possibilitou a evolução do pensamento, da memória e da linguagem, permitindo ao homem esse momento reflexivo em grupo no fim de um dia cansativo e cheio de emoções.
É aqui, em volta da fogueira do acampamento do homem primitivo que nasceu a família humana e os laços de afeto que uniram os homens em torno de uma sobrevivência para além da individual. Os grupos nômades existem até hoje. Entre os indígenas da Amazônia podemos ver ainda as tribos aumentando em número até se transformarem em duas que se separam para que a subsistência seja garantida. Este também foi o problema encontrado por Ló e Abraão quando saíram do Egito, demonstrando a antiguidade e naturalidade desse fenômeno social entre as tribos nômades.
É aqui, em volta da fogueira do acampamento do homem primitivo que nasceu a família humana e os laços de afeto que uniram os homens em torno de uma sobrevivência para além da individual. Os grupos nômades existem até hoje. Entre os indígenas da Amazônia podemos ver ainda as tribos aumentando em número até se transformarem em duas que se separam para que a subsistência seja garantida. Este também foi o problema encontrado por Ló e Abraão quando saíram do Egito, demonstrando a antiguidade e naturalidade desse fenômeno social entre as tribos nômades.
As tribos que se separam continuam, apesar disso, a manter uma relação de parentesco. Passam a ser tribos primas e delimitam fronteiras para a caça e a colheita. Mas a vida para o homem é dura e vira e mexe, junto com o clima, o território fértil também torna-se apertado. Períodos de seca e fome sempre testaram a amizade entre os grupos irmãos. Principalmente quando o vizinho de lá é muito mais afetado do que o de cá. A competição por comida e território também foi um fator importante no estreitamento das relações de fidelidade entre os seres humanos e está no embrião do sentimento de nação.
Dados os índices de mortalidade infantil e geral e a esperança de vida girando em torno dos 20 anos com anciãos muito velhos chegando com muita sorte aos 40, o ser humano tinha muito para viver em muito pouco tempo. Pai, mãe e filhos não era exatamente uma estrutura que fazia sentido. Mortes de parto, ou durante a gravidez eram comuns, o desconhecimento das relações entre sexo e gravidez, a desnutrição, doenças das mais variadas, verminoses, feras e insetos venenosos...
Sem agricultura ou escola de línguas, o homem pré-histórico precisava mesmo contar com os que estavam de pé ao seu lado e eram capazes de compreender mais ou menos os seus grunhidos e expressões corporais; a família era quem estava ali com você. Sua função era garantir que aquele grupo continuasse a caminhar pela terra. Sua hierarquia obedecia os princípios básicos de força, habilidade e conhecimento conforme a necessidade. Em um mundo sem escrita, sem linguagem desenvolvida e sem certezas, a familiaridade e a lembrança eram fatores fundamentais para a sobrevivência.
Sem agricultura ou escola de línguas, o homem pré-histórico precisava mesmo contar com os que estavam de pé ao seu lado e eram capazes de compreender mais ou menos os seus grunhidos e expressões corporais; a família era quem estava ali com você. Sua função era garantir que aquele grupo continuasse a caminhar pela terra. Sua hierarquia obedecia os princípios básicos de força, habilidade e conhecimento conforme a necessidade. Em um mundo sem escrita, sem linguagem desenvolvida e sem certezas, a familiaridade e a lembrança eram fatores fundamentais para a sobrevivência.
A família pré-histórica baseava-se na necessidade de sobrevivência em um mundo brutal e muitas vezes inexplicável. O ancião lúcido era um tesouro riquíssimo, pois guardava a chave para muitos problemas incomuns da época em sua memória, sua morte, por mais de 100 mil anos, representou uma enorme perda cultural para seu grupo. O desenvolvimento da linguagem foi fundamental para o aproveitamento desta característica da família tribal, permitindo que o conhecimento fosse transmitido de uma a outra geração de maneira cada vez mais complexa.
Quando surgiu a pintura rupestre o ser humano se tornou capaz de lembrar para além da vida. Mas esta primeira forma de escrita permanente deve ter começado muito antes com desenhos no chão e substâncias à base de água que se apagavam com as chuvas. Há uma pedra de 300 mil anos com indícios de pintura com ocre e manganês que indicam que os hominídeos já conheciam os processos de tingimento e os utilizavam em seus objetos. A pintura em paredes, pedras ou troncos, mesmo que se apagassem, fez o desenho tornar-se público, toda a roda visualizava a história, facilitando a absorção e fixação da informação.
Quando o desenho vai do chão para a parede, a família (coletivo com a mesma linguagem) transforma-se no alvo essencial da cultura. Sem esse reconhecimento linguístico entre seus membros e uma memória bem desenvolvida, tal transmissão seria dificílima. Essa nova técnica foi fundamental para o desenvolvimento da linguagem complexa e teve impacto direto sobre a memória coletiva, pois permitia e exigia lembrar para além do esquecimento. O ancião sábio poderia ter sido substituído aqui pelo contador de história com melhor memória, não fosse a agregação de novas funções ao seu papel na família.
Quando o desenho vai do chão para a parede, a família (coletivo com a mesma linguagem) transforma-se no alvo essencial da cultura. Sem esse reconhecimento linguístico entre seus membros e uma memória bem desenvolvida, tal transmissão seria dificílima. Essa nova técnica foi fundamental para o desenvolvimento da linguagem complexa e teve impacto direto sobre a memória coletiva, pois permitia e exigia lembrar para além do esquecimento. O ancião sábio poderia ter sido substituído aqui pelo contador de história com melhor memória, não fosse a agregação de novas funções ao seu papel na família.
Essa nova aquisição, a capacidade de simbolizar, tem um impacto progressivo na mente humana. O que primeiro é uma necessidade de diferenciar cobra e jacaré vai aos poucos ganhando novas utilidades. Demonstrar o melhor lugar para acertar um búfalo, a melhor arma, a direção de um bom pasto. Simbolizar é um exercício viciante, um símbolo leva a outro, uma definição implica outra e perder o fio da meada pode por jogar tudo por água abaixo. À medida que a linguagem se complexifica, as histórias se tornam mais densas e mais é exigido da memória e da capacidade de simbolizar. A necessidade de comunicar-se faz nascer a arte e a religião em uma associação inusitada para favorecer a lembrança.
A encenação, a dança e o canto são utilizados até hoje pelos povos tribais para favorecer a transmissão da cultura. Festas em torno da fogueira com danças, histórias e encenações contam os mitos, nomeiam os deuses, marcam a passagem do tempo e com isso não deixam que as gerações se esqueçam. A capacidade de simbolizar incide sobre a memória e a criatividade; poder representar-se com um desenho implica também a capacidade de individualizar-se, tornar-se "eu" e "não-outro". Este fenômeno permitirá ao homem sonhar e fantasiar acerca do sonhado, criando um novo mundo até então desconhecido.
O sábio, o contador de histórias e conhecedor da natureza, agrega uma nova função à medida que o mundo imaginativo se abre para o homem. Plantas alucinógenas são antigas conhecidas da humanidade e a imaturidade do simbolismo pode ter levado o homem a crer que o delírio fosse mais do que é. Agregando a função de explorador dos mistérios, o ancião resgata seu status e torna-se o xamã. A família organiza-se de novo ao redor dele e apoia-se sobre a capacidade inventiva da sua imaginação para refletir sobre o mundo.
A partir daqui trataremos da família falante, com linguagem própria e diferente das outras famílias falantes. O desenho rupestre foi uma evolução tão radical que dedicaremos o próximo texto a desenhar o ser humano que nasceu dessa nova conquista. Até lá.
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