(Continuação do post anterior!)
No meio do emaranhado de conflitos do nosso Ser Humano nos colocamos nós, ditos psicólogos. Para fazer o que? Em que o homem quer ser ajudado? Qual a sua demanda? Não há o que fazer no mundo, a não ser por nós mesmos. A Psicologia, estudo da Psique, deve abrir o caminho para a consciência-de-si primeiro, para através dela chegar a Outrem. Este é o caminho inverso ao que foi feito no sentido da alienação do eu: primeiro o outrem torna-se separado do Eu, o Eu descobre-se como outro e eu também a si mesmo e aliena-se de si pela introjeção dos valores. Agora, compreende-se o papel dos valores, liberta-se a vontade de seu condicionamento ao Outro, atinge-se a consciência-de-si e só então volta-se para a percepção de outrem como inerente a si.
Apesar de ser necessário romper com o outro para chegar a si, devemos ter em mente que este outro é fundamental para nossa própria sobrevivência. A sociedade onde vivemos é como um organismo vivo do qual somos células; nós dependemos dele, e não o contrário. A história de cada sujeito é que determina suas peculiaridades; a maneira como cada um lida com as coisas que acontecem a sua volta o torna um indivíduo único. Dialeticamente, ao mesmo tempo que a sociedade nos fornecerá o material necessário a essa individualização, ela restringe essa subjetividade a um certo número de subjetividades padrão.
Uma padronização desse tipo pode ser muito perigosa para um aprendiz de Psicologia: facilmente acredita-se que relativismo cultural é compreender o outro com base ainda em seus parâmetros, mas sem discriminá-lo. Com isso, a armadilha das estruturas clínicas o torna uma presa fácil para o discurso da ciência. O Homem, como foi dito no início, é um ser multifacetado capaz de infinitas formas de organização intrapessoal. Como enquadrá-lo nos critérios da neurose, psicose e perversão? Para descobrir o Homem, ele deverá embrenhar-se no tenebroso pântano de seu próprio ser e perceber que é na sua temporalidade que poderá se realizar enquanto o ser-para-a-morte que é, mas com sua vontade livre para desejar qualquer de suas infinitas possibilidades.
O homem é o único ser capaz de escolher lançar-se de um abismo consciente de que ao chegar ao fundo deixará de ser. Mas que consciência terrível foi esta que o homem adquiriu! Mas a uma pergunta que pessoalmente me faço: porque não conseguimos conviver pacificamente com essa consciência e passamos a vida tentando negá-la ou suprimi-la? Se somos seres temporais, aceitar essa condição é o meio mais rápido de encontrar a felicidade: pois se não há um inferno e ao acabar a vida, nada é o que nos restará, para quê tanta tortura?
“Pois bem, então morrerei. Mais cedo do que outros, evidentemente. Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos trinta ou aos setenta anos, pois, em qualquer dos casos, outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos. Afinal, nada mais claro, hoje, ou daqui a vinte anos, era sempre eu quem morria”. (Camus, O Estrangeiro, p. 118)
Nos encontramos então com a função agora social da Psicologia: atuar sobre o homem gerando consciência-de-si. O conhecimento filosófico e psicológico fornece um dos caminhos para essa consciência, mas como todo conhecimento profundo, requer não pacientes, mas aprendizes dispostos a cumprir com sua função. Essa deve ser a demanda de Psicologia e Filosofia para o ser: sabedoria e conhecimento. Somos sempre nós quem morremos, não os outros. Não há nada mais angustiante e mais gratificante que a consciência de que estamos vivos para morrermos e nada mais. A vida é um intervalo de existência entre dois Nada a ser preenchido como se bem entende, eis a felicidade ou o desespero mortal de Kierkegaard.
Quando o psicólogo lança-se no propósito de auxiliar seus aprendizes na arte de conhecer-se escolhe então sua verdadeira função social de estudioso da psique humana. Ora, uma vez tendo conhecimento e estando apto a passá-lo adiante, um psicólogo realmente engajado em sua escolha de vida profissional não deveria estar à caça de novos “clientes”, e sim de novos aprendizes de Psicologia. Tendo, todavia, o cuidado de não querer de seu sucessor que seja “como” o professor, mas que se torne maior e melhor do que ele, rompendo com o conceito moderno de competitividade que só veio a barrar o progresso do conhecimento da mesma forma como a teoria dos humores, da Grécia antiga veio a sobrepujar a crença no efeito das Ates, o que atrasou em séculos o desenvolvimento da Psicologia e ainda a atrelou ao conhecimento médico rotulativo que até nos dias de hoje ainda lutamos para superar.
“...porque se, como Zola, disséssemos que eles [os covardes] são assim por causa da hereditariedade, por causa da influência do meio, da sociedade, por causa dum determinismo orgânico ou psicológico, tais pessoas ficariam sossegadas e diriam: ora aí está, somos assim, contra isso ninguém pode fazer nada. Mas o existencialismo, quando descreve um covarde, diz que este covarde é responsável pela sua covardia. Ele não é um covarde por ter um coração, pulmões ou um cérebro covardes (...), mas sim porque se construiu como um covarde pelos seus atos. (...) ...o covarde é definido a partir do ato que praticou. O que certas pessoas sentem obscuramente e que as horroriza, é que o covarde que apresentamos é culpado de ser covarde.” (Sartre, O Existencialismo é um Humanismo, p. 244 – 245)
Uma vez alcançada a consciência de que cada um é responsável por aquilo que faz de si, e que não há um Deus, um Estado ou qualquer “força oculta” capaz de obrigar quem quer que seja a fazer o que não quer, seremos então capazes de dar maior valor a nossos próprios atos como sendo partes integrantes de nós mesmos. Só é possível aprender com os próprios erros se primeiro se reconhecer como errante e ao erro como seu erro. Este deve ser o perfil do psicólogo engajado com o real: ele deve ter bem definido dentro de si que ele é aquilo que faz e nada mais, assim como não há nada nas pessoas além do que elas fazem; as possibilidades descartadas a partir de uma escolha foram descartadas, já não são mais e, portanto, só o que se torna em ato existe e é passível de análise.
Uma constatação como esta pode ser, no entanto, causadora de grande angústia para um indivíduo: descobrir-se sozinho no mundo, limitado por sua própria existência e criador de si mesmo, portanto, responsável por suas escolhas, pode ser desesperador. Saber-se um vitorioso por seus próprios méritos é muito bom, mas reconhecer-se responsável por seu próprio fracasso é um caminho doloroso a se seguir. E apesar de tudo isso, encontramo-nos em um curso de Psicologia que demanda de seus alunos essa capacidade de ensinar as pessoas que virão a nos procurar acerca delas próprias, de seu lado bom e seu lado mau. Em outro termo, a angústia como compreensão existencial torna possível ao homem fazer da necessidade, virtude: aceitar com um ato de escolha aquela situação de fato, que é o seu destino e que sem a angústia procuraria vãmente transcender.” (Dicionário de filosofia. p. 57)
Não é possível enganar-se por mais tempo: o sujeito que procura um consultório, procura a si mesmo e ao “médico” cabe tratá-lo ou medicá-lo. Há muito tempo que a medicação é utilizada indiscriminadamente, posto que é muito mais simples calar um sintoma do que resolver todo um intrincado de conflitos subjacentes ao sintoma. Há muito tempo prefere-se as ciências naturais à Filosofia como forma de pensamento hegemônico em nossas sociedades ocidentais. E enquanto isso, vemos de braços cruzados o Homem destruir-se porque é incapaz de reconhecer seus erros e aprender com eles. Essa cultura da perfeição matemática, já superada no meio científico, ainda bloqueia o desenvolvimento humano traçando para os homens sempre planos lineares, provocando a divisão do individuum em áreas definidas e delimitadas.
Só a dor de perder-se no nada para reemergir mais consciente de si pode salvar o Homem do pauí da ingenuidade e crendice, permitindo-lhe assumir-se como é e desejar com todas as forças exercer esta autenticidade para consigo mesmo. As possibilidades de existência já foram por demais limitadas e a realidade não pode mais continuar sendo aceita aos pedaços porque se tem medo da verdade. Ora, nós somos a verdade e o caminho para a felicidade e, mesmo que este seja um processo interminável, é extremamente gratificante quando visto da perspectiva de que só temos uma curta vida para descobrirmos quem somos, quais são nossas possibilidades e nossos desejos. Mas mais importante que isso é saber que tudo que temos somos nós mesmos – e nosso corpo enquanto fenômeno deste ser que somos – e sem o cuidado-de-si, jamais nos salvaremos da danação eterna: passar vida e morte nas trevas de si mesmo.
Uma vez alcançada a consciência de que cada um é responsável por aquilo que faz de si, e que não há um Deus, um Estado ou qualquer “força oculta” capaz de obrigar quem quer que seja a fazer o que não quer, seremos então capazes de dar maior valor a nossos próprios atos como sendo partes integrantes de nós mesmos. Só é possível aprender com os próprios erros se primeiro se reconhecer como errante e ao erro como seu erro. Este deve ser o perfil do psicólogo engajado com o real: ele deve ter bem definido dentro de si que ele é aquilo que faz e nada mais, assim como não há nada nas pessoas além do que elas fazem; as possibilidades descartadas a partir de uma escolha foram descartadas, já não são mais e, portanto, só o que se torna em ato existe e é passível de análise.
Uma constatação como esta pode ser, no entanto, causadora de grande angústia para um indivíduo: descobrir-se sozinho no mundo, limitado por sua própria existência e criador de si mesmo, portanto, responsável por suas escolhas, pode ser desesperador. Saber-se um vitorioso por seus próprios méritos é muito bom, mas reconhecer-se responsável por seu próprio fracasso é um caminho doloroso a se seguir. E apesar de tudo isso, encontramo-nos em um curso de Psicologia que demanda de seus alunos essa capacidade de ensinar as pessoas que virão a nos procurar acerca delas próprias, de seu lado bom e seu lado mau. Em outro termo, a angústia como compreensão existencial torna possível ao homem fazer da necessidade, virtude: aceitar com um ato de escolha aquela situação de fato, que é o seu destino e que sem a angústia procuraria vãmente transcender.” (Dicionário de filosofia. p. 57)
Não é possível enganar-se por mais tempo: o sujeito que procura um consultório, procura a si mesmo e ao “médico” cabe tratá-lo ou medicá-lo. Há muito tempo que a medicação é utilizada indiscriminadamente, posto que é muito mais simples calar um sintoma do que resolver todo um intrincado de conflitos subjacentes ao sintoma. Há muito tempo prefere-se as ciências naturais à Filosofia como forma de pensamento hegemônico em nossas sociedades ocidentais. E enquanto isso, vemos de braços cruzados o Homem destruir-se porque é incapaz de reconhecer seus erros e aprender com eles. Essa cultura da perfeição matemática, já superada no meio científico, ainda bloqueia o desenvolvimento humano traçando para os homens sempre planos lineares, provocando a divisão do individuum em áreas definidas e delimitadas.
Só a dor de perder-se no nada para reemergir mais consciente de si pode salvar o Homem do pauí da ingenuidade e crendice, permitindo-lhe assumir-se como é e desejar com todas as forças exercer esta autenticidade para consigo mesmo. As possibilidades de existência já foram por demais limitadas e a realidade não pode mais continuar sendo aceita aos pedaços porque se tem medo da verdade. Ora, nós somos a verdade e o caminho para a felicidade e, mesmo que este seja um processo interminável, é extremamente gratificante quando visto da perspectiva de que só temos uma curta vida para descobrirmos quem somos, quais são nossas possibilidades e nossos desejos. Mas mais importante que isso é saber que tudo que temos somos nós mesmos – e nosso corpo enquanto fenômeno deste ser que somos – e sem o cuidado-de-si, jamais nos salvaremos da danação eterna: passar vida e morte nas trevas de si mesmo.

Comentários
Muito semelhante ao pensamento e Epicuro, não? Ele dizia que se quando morremos, nosso eu some e não sentmos nada nem mesmo existimos, não há motivos para se preocupar com a morte, para teme-la. Em outras palavras: se quando eu estou ela não está, e quando ela está eu não estou, ela não deve ser temida, não devemos nos importar :)
"o covarde é definido a partir do ato que praticou."
"Este deve ser o perfil do psicólogo engajado com o real: ele deve ter bem definido dentro de si que ele é aquilo que faz e nada mais, assim como não há nada nas pessoas além do que elas fazem;"
Isso é do Existencialismo, né? Parece muito também com a filosofia do Gilbert Ryle, quando tenta desfazer certos erros linguísticos cartesianos que transparecem a mente como uma substância. Para Ryle, a mente não é nada mais que o fazer algo e não uma substância qualquer. Então, o fazer é o importante. É como o Batman diz em batman Begins: "Não é o que eu sou por dentro que me define, mas o que eu faço." (referência nerd hahaha)
Sim, de fato, embora quando escrevi o texto eu estivesse acompanhada de Albert Camus e seu Mito de Sísifo. Mas o que não pode ser reduzido a algum grego antigo, não é mesmo? Às vezes chega a parecer que já naquela época eles disseram tudo o que havia para ser dito. Depois disso ficamos só repetindo com palavras diferentes.
"Isso é do Existencialismo, né?"
Sim, o existencialismo é a "carne" do meu "esqueleto" gestáltico e a fenomenologia é o "sangue". :)