Sócrates, o filósofo grego, há quase 2500 anos atrás, disse: "Conheça-te a ti mesmo". A filosofia clássica estabeleceu certas "descrições" tão precisas que poderiam ser chamadas de postulados se não houvesse tanta gente precisando vender livro de psicologia para comprar comida. O fato é que certas coisas são o que são. O que é óbvio está embaixo do nariz de todo mundo, mas é um chute nos "brios" de qualquer um falar que aquela sua teoria cheia de palavras difíceis poderia ser resumida a uma frasezinha dita há mais de dois mil anos por um cara barbudo que te transformaria em governador só por você ter um tênis. E praticamente toda afirmação de filósofos e psicólogos modernos, no fim, pode ser reduzida a alguma coisa que algum grego já falou antes. A diferença é que antes a curiosidade era mais genuína, pois visava-se conhecer, hoje queremos lucrar.
Quando Hipócrates, aquele do juramento dos médicos, criou sua teoria dos humores, ele se baseava na hipótese de que tais fluidos eram produzidos dentro do corpo. Galeno resolveu investigar a teoria de Hipócrates e ele não teve fé nem piedade, conseguiu alguns cadáveres e esquadrinhou cada centímetro de carne, investigou todo tipo de fluido corporal, das lágrimas às fezes, não satisfeito, descolou ainda alguns condenados aos quais aplicou as técnicas de vivissecção para ver os tais fluidos circulando e sendo produzidos. Tosco, mas deu resultado. Assim como os egípcios, que cutucavam tanto que acabaram descobrindo até técnicas de cirurgias cerebrais. Em uma época em que não havia energia elétrica, ultrassom, exame de sangue, ressonância, raio-x... O que podemos saber com certeza é que não era nos ratos que eles experimentavam. O ser humano, como já afirmei antes, não é "programado" para viver com situações inacabadas, ele precisa saber. E para saber, já fizemos muitas coisas das quais não nos orgulharíamos muito.
Na história do conhecimento humano cutucamos muita coisa sem saber o que ia acontecer. Às vezes dava muito errado, às vezes os próprios familiares eram as cobaias e às vezes, ainda, dava muito errado com o familiar, mas era assim mesmo, não havia este apego estranho que há hoje ao indivíduo "imutável". Se ao cutucar o cérebro do seu filho para aliviar a pressão sanguínea depois de um golpe na guerra, ele nunca mais fosse o que era antes, o que importa? Ainda era um filho vivo, mais um braço para arar a terra, mais um homem para fazer filhos para o povo e defendê-los dos inimigos. Mas se tinha perdido as pernas, bem... Não vemos muitos relatos de sobreviventes sem pernas de batalhas antigas, vemos? Eles morriam de infecção ou de misericórdia? Eu aposto no segundo, pois homens com talhos imensos no abdômen sobreviveram aos borbotões para continuar suas histórias. Por que não conhecemos generais e reis que tiveram mãos ou pernas amputados? Não era mais fácil curar um rim perfurado do que uma canela amputada, certo?
O ser humano, em uma época em que a sobrevivência e a liberdade realmente eram um problema sem solução, era mais realista em suas decisões. Hoje ficamos "ofendidos" ao saber que índios perdidos lá no meio da floresta amazônica sacrificam recém-nascidos deficientes, então nos colocamos a berrar contra eles sem pensar em nada. Ora, não teríamos chegado até aqui arrastando os deficientes conosco. Hoje eles podem existir em paz (muito mais ou menos ainda, mas já podem) sem representar um peso para a sociedade capitalista (será?). Mas foi porque não mantinham-nos vivos que pudemos avançar. O mundo era algo hostil e o homem, um macaquinho pelado lutando desesperadamente para não desaparecer. Hoje vivemos tranquilos, confiantes de que a tecnologia (nosso mais novo deus) nos responderá quando for preciso. Temos sismógrafos para os males da terra, irrigação para as secas, adubo, pesticida, muralhas e aterros, helicópteros para resgates, enfim, sobrevivência e liberdade hoje não passam de palavras de ordem desprovidas de conteúdo prático cultivadas para subjugar os ignorantes ofendidos e mantê-los assim, ofendidos e ignorantes.
Hoje não arrisca-se a vida nem de quem está morrendo e quer muito arriscar-se por alguns dias a mais. A lei nos protege de nós mesmos e do progresso. Não do progresso burro e cinza da Revolução Industrial, mas do progresso colorido das células tronco, do tratamento do cancer, dos aceleradores de partícula, da comunicação por neutrino, da informação livre... Criamos um tal paradoxo em nossa estrutura social que perdemos o dinamismo, nos engessamos em moralismos que não existiram nem na época em que dizem que eles foram "pensados". Inventamos conceitos bisonhos como o politicamente correto, ou a economia verde, ou a liberdade de imprensa, ou o espiritualismo... E ficamos presos como um gato surtado que atacou um novelo de lã. Vivemos em um mundo onde a única ameaça real à nossa permanência somos nós mesmos. O excesso de pessoas vivendo amontoadas e em péssimas condições, maltratando umas às outras, se matando de trabalhar por nada, apenas preenchendo de nada o intervalo de suas existências e é ainda estimulado a se relacionar compulsivamente com estranhos sem usar camisinha ou pílula. O primeiro, porque é "libertário" ser promíscuo e está na moda ser "livre", o segundo porque é pecado evitar a gravidez e porque a indústria farmacêutica gosta de tratamentos intermináveis como a AIDS ou pessoas adoecidas pela miséria.
Somos muitos, somos burros e somos fracos. Somos dinheiro fácil. Acreditamos piamente, por exemplo, que apesar do aborto ser uma prática cirúrgica simples (não sem riscos ou sem sequelas, apenas simples), não devemos abortar um filho indesejado em hipótese alguma. Por quê? Há motivos desprovidos de moralidade engessada para isso? Há motivos para não se submeter a vários abortos, pois são intervenções invasivas que podem, cumulativamente, levar à esterilidade ou à morte. Mas não se submeter nunca, de jeito nenhum, a ponto de precisar ser proibido e moralmente condenável? Quem ganha com isso e quem perde? Certamente o povo não ganha nada. Mas acredita que está sendo protegido de si mesmo, pois sem a proibição todas as mulheres abortariam indiscriminadamente. Se é para proteger, então por que não há regulações sobre as cirurgias plásticas que matam milhares de mulheres por vaidade? Os riscos são até maiores, os motivos, mais banais, mas com as plásticas vários setores ganham dinheiro, do vestuário aos analgésicos, até o cabeleireiro se beneficia. E com o aborto? Só a grávida, que vai gastar menos com sustento familiar e talvez possa até estudar mais e ter uma vida mais saudável depois do "susto".
Mas a questão não é o aborto, é nossa falta de memória, nossa inépcia para julgar os fatos, nossa preguiça mental. Os seres humanos não eram mais evoluídos antes que agora, eram mais realistas. Antes queríamos saber, agora, queremos consumir. Foi através da "propaganda" (ou seria pregação?) que nos convenceram que a lã era boa e agora nem ela está conseguindo esconder o tanto que estamos embolados. A tecnologia, de repente, pode ter virado a tesoura que nos desamarrará desse bolo. Precisamos agora conhecer-nos para não nos confundirmos com a lã que nos prende e nos cortarmos junto no processo. Mais do que nunca deveríamos ir buscar no passado o que nos movia e nos reencontrar com o ser humano curioso que as religiões de Moisés imobilizou. Me pergunto se a consciência será capaz de superar o macaco ganancioso e estúpido que nos habita para fazer-nos voltar ao caminho da civilização um dia...
