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Crise e Oportunidade II - a ampulheta da Terra




Crise climática

Há pouco mais de um ano escrevi um texto intitulado "Crise e Oportunidade - a história e o futuro da humanidade". Tive vontade de relê-lo por ocasião do tufão Haiyan, que atingiu recentemente as Filipinas com o recorde de maior furacão do planeta (até agora). Naquela época o Japão havia sido atingido pelo terremoto que causou o acidente em Fukushima e os americanos estavam exultantes. Fukushima está vazando até hoje e parece que a natureza não está muito preocupada com nacionalidades - tem até urso polar começando a perder pelo. A temporada de furações nos EUA fez a tempestade chegar à Estátua da Liberdade. O inverno passado não quis passar na Europa, provocando nevascas em plena primavera. No Brasil, um inverno ameno, regado a chuvas primaveris e agora uma primavera de tempestades dignas de janeiro ou março alagando um Estado inteiro e deixando milhares de desabrigados por uma vasta região do país. Chegou a nevar no Cairo, Israel ficou fechada por dias, Chipre parecia mais um iceberg perdido no Mediterrâneo! Aqueles que já têm suficientes verões em suas costas e memória o bastante para perceber as mudanças, sabem que o recado é claro, nem precisa de ONG do Clima para provar o que se pode ver por todo canto. Em breve sentiremos os efeitos da "crise" climática também em nossas barrigas e bolsos. O que nos leva a mais uma crise:

Crise ecológica

Já faz um tempo que começamos a ver uma aceleração nos processos de extinção de animais por todo o planeta. Os seres humanos cobriram tudo e pior, andam por toda parte levando consigo elementos da fauna e flora que não pertencem a este ou aquele ecossistema, criando desequilíbrios ecológicos, espalhando doenças, reduzindo e isolando habitats. Para por mais lenha na fogueira, políticas anti-aborto, ideologias maldosas contra o planejamento familiar e outras insanidades se espalham pelos países mais pobres estimulando ainda mais a superpopulação de seres humanos. Atualmente somos 7,2 bilhões de barrigas, 90% delas cheias de vermes, a defecar por toda parte e consumir tudo o que vemos e às vezes até o que não vemos. Atualmente até as abelhas, as principais polinizadoras da nossa frágil agricultura, andam pedindo arrego. Outro dia estava a ONU fazendo campanha pela popularização do grilo e outros insetos como fonte de alimento, daí já se tem uma ideia do que está por vir.

A exploração dos recursos naturais do planeta já melhorou muito, mas é tudo, menos eficiente. Sujamos muito mais do que conseguimos limpar, sobrecarregamos os sistemas naturais, impermeabilizamos enormes áreas para torná-las "habitáveis"... Nada disso seria um problema real se não fôssemos tão numerosos, mas como se não pudesse ficar pior, o amadurecimento cultural e político também não gosta de guerras, o que, convenhamos, atrasou o inevitável em boas décadas quando desfalcou duas gerações de jovens reprodutores durante as duas grandes guerras. Estamos construindo uma imensa sinuca de bico na qual a bola a ser encaçapada somos nós mesmos. O mundo humano cresceu tanto que deixou o planeta pequeno para todos os outros seres vivos. Não satisfeitos, estamos fazendo por onde deixar apertado até para nós.

Crise populacional

A evolução dos seres humanos já passou por gargalos apertados, mas até hoje, como as baratas, parecemos imbatíveis. Estamos apertados em um pequeno aquário esférico, perdidos no final de uma galáxia relativamente pequena nos reproduzindo como coelhos loucos e comendo mais do que podemos plantar. - Nosso futuro parece promissor. - Engessados em noções do passado, enfrentamos problemas nunca antes imaginados, lutamos contra nossos instintos e tradições, lutamos contra o inexorável Tempo, lutamos contra tudo aquilo que fez de nós quem somos hoje: uma superpopulação. Uma batalha que não será fácil de vencer. Uns querem partir para Marte ou para a Lua, obedecendo uma reação básica dos grupos humanos: cresceu demais, divide para manter a sustentabilidade do grupo. Outros querem criar imensos edifícios ou verticalizar as cidades. Outros tantos ainda preferem esperar para ver. O problema, no entanto, reside em um ponto fundamental: estamos usando fórmulas antigas, relativas a uma quantidade normal de pessoas, para resolver as contas da superpopulação. Não basta adicionar zeros, nosso problema agora já não respeita fronteiras, línguas ou culturas, muito menos limita-se apenas aos seres humanos.

Nós viramos o ponto de báscula, daqui para a frente, tudo tem que ser diferente ou vamos acabar por deixar de ser "gente". E não é só a quantidade de pessoas que nascem que se tornam a cada dia um problema maior; há ainda as pessoas que já não morrem. As taxas de mortalidade infantil ou senil caíram tanto que até os economistas já andam preocupados com as previdências. E nossa resposta ainda é tão antiga que mesmo vivendo até os 90 e só entrando no mercado de trabalho aos 30, a aposentadoria é um direito das pessoas por volta dos 60. E com a quantidade de filhos por casal diminuindo, logo o resto zero dessa conta será apenas um sonho nebuloso e distante. É difícil ver luz no fim desse túnel e a julgar pela boa vontade política e pelo apelo do lucro, parece que tantas crises dificilmente serão resolvidas em tempo hábil. Nos resta acompanhar para ver onde tudo isso nos levará e torcer para que as boas ideias não sejam todas soterradas pelo bom e velho "progresso". É por isso, e por muitos outros motivos que fariam deste texto um compêndio da estupidez humana, que devemos nos mexer e fazer o que pudermos para evitar que toda a manada humana se precipite do penhasco da existência.

Crise econômica

Enquanto isso, a revista americana The Economist anunciou no último mês de 2013 certa probabilidade de recessão e crise global em 2014. A Grécia, pobrezinha, ficou pobrezinha mesmo e parece que não vai mudar tão cedo. A Espanha mantém seu rei caçador de elefantes e um quarto da população no desemprego. Portugal está às voltas com moradores de rua e viciados em droga a céu aberto. Até a Inglaterra, que apesar de não se livrar dos tronos de ouro maciço, está apertando seus cidadãos à fome e ao frio, enfrentando imensos problemas com o alto custo de suas fontes de energia à base de carvão e petróleo. O Oriente Médio e o Norte da África estão uma bagunça, encarecendo ainda mais o custo de vida dos britânicos que enfrentarão uma verdadeira luta pela sobrevivência neste inverno para não congelar. A China está encrencando com o Japão, que ainda tem um vazamento nuclear para resolver antes que os futuros kamikazes comecem a nascer com duas ou três cabeças. A Rússia resolveu bagunçar com a Ucrânia depois de melar os planos de guerra na Síria, agora até homens-bomba andam a explodir por lá.

E os EUA... Ah, os EUA! De tanta admiração pelos romanos, acabaram vítimas de sua própria emboscada. Ralo do mundo, os EUA estão entre a cruz e a caldeirinha em uma espiral que não deve se sustentar por muito mais tempo. Com um imenso e caro exército espalhado pelo mundo todo sem grandes guerras para lutar, os EUA, junto com a Inglaterra, são reféns do petróleo. A situação que se criou no Oriente Médio, antes lucrativa, saiu do controle e está atravancando o acesso ao indispensável fluido negro. A revolução energética que poderia ter ganhado força há 10 anos atrás, libertado EUA e Inglaterra do cárcere econômico e de quebra ainda salvar nosso futuro, foi adiada para beneficiar antigos negócios que só não faliram ainda porque... Uma cartada conservadora salvou-os temporariamente de si mesmos, mas acarretou em graves prejuízos para a economia global, serviu de desculpa para os países ricos escaparem do compromisso de sustentabilidade na Rio+20 e ainda pesou a balança a favor daquele esquecido bloco comunista do Oriente jogando um pouco de caos dentro do crime perfeito. Tanto tiro pela culatra só poderia acarretar em um efeito dominó que está fazendo muito peixe grande perder o sono e a cabeça.

Crise cultural

O movimento turístico se intensifica à medida que as culturas se aproximam e as culturas, por sua vez, se aproximam à medida que suas economias se misturam. A globalização força assim uma troca que vai muito além da troca de mercadorias ou serviços, ela força a troca cultural e com ela a modificação do Homem. Um princípio de familiaridade torna inevitável que a frequência do contato modifique as culturas. Todo o pressuposto da nacionalidade como conceito surgiu exatamente diante da necessidade do comércio com povos de culturas distintas já nas primeiras sociedades humanas depois da agricultura. Quando os seres humanos cobriram todo o planeta, quando decidiram que teriam livre tráfego entre todos os continentes, que o lucro sobrepujaria a distância, começamos a nos desvencilhar de um dos laços que garantiu nossa sobrevivência desde que éramos macacos: a tribo. Hoje vivemos uma realidade que poderia ser chamada de metatribal: uma tribo dentro de outra tribo, dentro de outra tribo, cada vez em uma escala maior até alcançar toda a espécie humana.

Ainda não nos desvencilhamos completamente da necessidade da tribo, da identificação do familiar versus o estranho, mas já não podemos deixar de nos ver a todos como uma imensa família global. Um recorte ainda estranho, emoldurado conforme a imaginação de cada um, mas ainda assim, uma fantasia coletiva que já não respeita fronteiras. Esse movimento de unir e separar tem provocado diversas mudanças nas sociedades humanas. Discussões sobre o direito dos homossexuais, sobre a inclusão do deficiente, sobre xenofobia, sobre intolerância religiosa... Diversos dogmas que até pouco tempo eram inquestionáveis começaram a efervescer diante da multiplicidade empilhada sobre si mesma. O advento da internet, conectando distância imensas, permitiu uma troca ainda mais profunda e profusa. As culturas tornaram objeto de estudo, objeto de desejo, de discussão e misturar já vai se tornando uma necessidade intrínseca, uma vontade cada vez mais presente no imaginário humano.

Crise política

Política Externa - Com as culturas mudando, as sociedades crescendo, as bordas cada vez mais próximas, é natural que ocorram fusões e estranhamentos. As últimas décadas viram surgir mercados unificados como o MercoSul, a União Europeia, o BRICs e muitas outras associações regionais. Essa complexificação da economia implica também uma dedicação política diferenciada. Não se trata mais de defender seu território contra os vizinhos hostis. A vizinhança cada vez mais tem se tornado amigável e o comércio estreitou as semelhanças entre os povos. Hoje as defesas foram expandidas e alcançam blocos inteiros de países. Por vezes estes países sequer compartilham fronteiras. A política internacional como um todo tem se empenhado em conciliar, mais do que confrontar interesses.Essa nova situação internacional é pesada a partir do que os países têm a perder e ganhar com a instabilidade dos outros ao seu redor, uma conta que já não é tão simples quanto antes. Períodos de transição podem ser confusos e nem sempre facilitados pela população dos países envolvidos ou mesmo seus governos. Rixas, pirraças, sabotagens mesquinhas... Apesar da cultura geral parecer ter amadurecido um pouco, nem sempre pode-se dizer que a política segue o mesmo caminho. É difícil modificar um comportamento milenar em algumas décadas, especialmente quando o poder de mudar o futuro se assenta nas mãos de velhos que já não conseguem compreender metade das tecnologias que os cercam, mas vamos caminhando.

Política Interna - Sejam reis, primeiros-ministros, presidentes ou até o diabo, fato é que a representatividade não anda mais tão representativa assim. O Povo, aquela parte da sociedade humana que carrega todo o resto nas costas e nunca foi realmente considerada quando se pensa que quando um sistema se diz representativo, quer dizer que alguém representa um grupo diante de outro alguém ou grupo... Bem, este povo, obrigado a estudar mais para trabalhar com as novas tecnologias, acabou aprendendo alguma coisa e agora anda querendo ser representado também, complicando ainda mais a conta que dava zero quando o analfabetismo era sua condição de ser. Por conta desse detalhe quem estava no poder e representava uma outra camada social, agora está sendo requisitado a representar aquilo que ele nunca conheceu: seu eleitor, sob pena de não obter votos, caso se negue. É preciso compreender porém, que o poder é sempre conservador, mesmo que se vista de "liberal" e sendo assim ele não dá o primeiro passo, mas antes, tenta evitar sempre que este seja dado até que se torne inevitável. Então estamos vendo o crescimento cada vez mais gritante das abstenções em eleições por todo o planeta. Em breve nos perguntaremos se é possível eleger um presidente por um pleito que contou apenas com 10% dos votos de todo o eleitorado de um país, pois 90% não quis votar.Vai ficar difícil governar...


Ainda há tantas "crises" a serem abordadas que compreender o caminhar humano se torna um exercício constrangedor. Quanto mais investigamos, mais insatisfeitos ficamos com os resultados que temos alcançado, mais envergonhados nos sentimos de nos chamar de "espécie mais inteligente do planeta". Mas essa mesma insatisfação pode conter também a chave da mudança. As vantagens de um mundo globalizado, se superarmos nossa xenofobia e egoísmo patriótico, estão exatamente no trânsito fácil das ideias. Muitas cabeças pensando valem muito mais do que alguns reis mandando. Basicamente, precisamos superar a velha lógica e começarmos a observar o mundo com mais praticidade e menos amor teórico. As tradições, que por tantos séculos nos deram um nome, um modo de vida, uma visão de mundo, precisam mudar. Todos e cada um de nós, diante de um mundo entupido de humanos tresloucados, tem um papel importante a desempenhar sob a condição de criar um efeito borboleta a partir de suas decisões. Se cada um de nós puder dar um pouquinho de si para melhorar o que temos, com 7,2 bilhões de cabeças pensantes, ainda temos alguma chance de não virarmos apenas mais um fóssil a ser descoberto pela próxima espécie inteligente que se desenvolver por aqui. O Tempo, aquele antigo deus que tudo devora, não se sacia nunca, então, é melhor colocarmos nossa massa cinzenta para funcionar ou seu próximo prato poderá ser sopa de gente ao molho de peste. As formigas desde já agradecem.

Comentários

Unknown disse…
Muito bom, vc escreve muito bem!
Unknown disse…
Este comentário foi removido pelo autor.

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