Falemos de privacidade,
de ilusões e negações,
nostalgias, utopias e alienações.
Falemos de 1984,
de Orwell e de Deleuze,
degradações, hospícios e prisões.
Falemos de pobreza, de safadeza,
De massacres, exorcismos, condenações.
Falemos de tecnologia,
Celular com filmadora, conexão 3G,
Youtube, Twitter e Facebook.
Obama, Sarney ou Putin.
Cartão de crédito, conta de luz e RG.
- Sorria, estão filmando você!
Seu passaporte, seu currículo,
suas compras na padaria...
Privacidade, mera utopia.
"Que canal você assite?
A que horas você dorme?
Por que ainda resiste?
Sua alma é nosso mote.
Vamos cuidar de você,
assegurar o seu futuro.
Plante flores. Coma grilos!
...e deixe o resto comigo.
Você precisa de um líder,
pode deixar que eu te guio."
Então falemos de privacidade,
de rastros, de gato e rato.
Falemos de terrorismo,
de violência, risco e perigo.
Falemos de lendas urbanas,
Lobisomens estupradores,
vampiros incendiários
e mutantes revolucionários.
Falemos do noticiário.
Pão, circo e um povo assustado.
Falemos de cartas marcadas,
de trabalho escravo e do nosso
pequeno universo.
Falemos de primaveras árabes,
islamofobias, burcas, biquinis
e propagandas dando certo.
Falemos de piratas e desertos,
de bombas, negociatas e concreto.
Falemos de transparência,
de retorno à decência
e obras sem licitação.
Falemos de acessibilidade,
de mudanças sem vontade,
de propaganda eleitoral.
Falemos de estupros, gays,
cristofobia, corrupção,
subornos e romarias.
A cultura se constrói dia após dia.
Com o suor dos nossos rostos,
eu, você, o João e a Maria
assentamos os tijolos
desta construção mal resolvida.
Então falemos de cultura,
governo, censura e ditadura
até que tudo mude um dia
e privacidade já não seja mais assunto,
nem estupros, nem ladrões, nem baixarias.
Falemos até que nos escutem.

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