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Dicotômicos e anacrônicos


A tábula rasa

Jonh Locke, pensador inglês de meados do séc. XVII, acreditava que o ser humano nascia como uma folha em branco a partir da qual a absorção passiva da cultura escreveria as linhas de comportamento de cada indivíduo. Nasceríamos essencialmente bons e seríamos, gradualmente, transformados no humano moral capaz de decidir entre o bem e o mal. A corrupção do homem ocorreria então através da educação e da convivência. De acordo com a sua lógica, uma educação ideal seria capaz de gerar indivíduos bons, muito embora aparentemente não tenhamos sido capaz de inventar tal método e erradicar a maldade do planeta até hoje. Muito suspeito isso...

A questão de Locke não leva em conta um ponto fundamental que só foi considerado tempos depois: os efeitos de uma ação dependem de uma reação voluntária de quem a sofre. É exatamente neste ponto que percebemos que Locke não considerou as peculiaridades individuais. Um mesmo evento pode ser interpretado de várias maneiras, conforme o quadro de referências, a bagagem cultural  e as características inatas dos indivíduos que o vivenciam. Um professor elogiando o trabalho de um aluno pode tanto estimulá-lo a estudar mais quanto acomodá-lo em um esforço menor do que o que ele pode fazer, o resultado que o elogio produzirá vai depender muito mais do elogiado do que do elogiador.


Reduzir para entender

Essa multiplicidade absoluta do ser humano, sua falta radical de instintos, torna as teorias acerca do que é o Homem uma empreitada quase impossível de realizar. Lançamos mão do reducionismo para tentar abarcar a infinidade e com isso colhemos apenas compreensões parciais. Como criar uma teoria da educação se for preciso levar em conta cada variável possível?

Por muito tempo reduzimos o conhecimento acerca do Humano à compreensão de uma maioria ideal, uma média que toma por total o mais comum. Com isso as teorias existentes sobre o ser humano não são capazes de abarcar exatamente aqueles seres humanos capazes de fazer a diferença, quer para melhor, quer para pior. Hitler, Rousseau, Maquiavel, Jesus, Buda, Julio César, Saddam Hussein, Mao Tsé, Charles Manson, Gandhi, etc... Nenhum deles seria contemplado pelas teorias generalistas. Por muitos séculos o conhecimento do Homem se limitou a ignorar o que fosse diferente a fim de manter estabilidade da teoria.

Em 1900 a população global de seres humanos era de aproximadamente 1,7 bilhão. Havia espaço de sobra e ir de um ponto a outro do planeta podia ser muito, muito demorado. Há trinta anos atrás uma carta demorava uma semana para ser entregue e ligações interurbanas custavam "os olhos da cara". Hoje nos aproximamos dos 8 bilhões de humanos e correspondências postadas antes das 10 da manhã são entregues no mesmo dia (mediante pagamento de taxa especial, por enquanto). Ignorar a minoria em 1900 já estava se tornando difícil. Hoje é impossível.


Minorias superpopulosas

Um exemplo recente e muito contundente foi o de uma minoria de 800 mil que se reuniu na França para protestar contra o casamento gay. Para deixar os números mais palpáveis, façamos alguns paralelos. Se os gregos tivessem um exército destas proporções teriam feito Artaxerxes I, rei da Pérsia, dar meia volta com o rabo entre as pernas na guerra das Termópilas. Em 2013, só na cidade de São Paulo vivem quase 11 milhões de pessoas! 800 mil manifestantes equivale a 1,2% da população total da França, quantidade esta que é facilmente descartada como irrelevante quando se trata de estudar as maiorias, especialmente no quesito comportamento.

Só no Brasil há 5,7 milhões de deficientes auditivos, mas essa minoria é silenciosa e ignorada, principalmente quando comparada com as minorias mais barulhentas e ativas na sociedade. Ou ainda, cerca de 70 milhões de mulheres atualmente no mundo sofreram clitoridectomia e 34 milhões de pessoas são portadoras do HIV. Aparentemente, o que chamávamos de minoria há algum tempo e descartávamos com facilidade, hoje abrange tanta gente que há nações com menos pessoas do que algumas minorias.

Nos EUA nasceu um movimento intitulado "We're the 99%" que protesta contra o controle da sociedade pelo 1% de habitantes muito ricos e poderosos. Este movimento aponta para um fenômeno curioso e inédito. O início do século XXI trouxe consigo uma consciência nova que permeia também os 99%; finalmente percebemos que ignorar a minoria é o que nos impedia de tomar a história em nossas mãos. Enquanto permanecia ignorada, a minoria permanecia à margem da análise crítica, parecia que não interferia na história. Mas como denuncia o movimento americano, é exatamente a minoria que produz, ou impede, o fluxo histórico.

Em uma curva mediana há sempre uma minoria aquém e outra além da média. Quando começamos a prestar atenção na ponta de baixo, aplaudindo os esforços para garantir direitos a minorias como os portadores da Síndrome de Down, cadeirantes, aposentados, etc, inevitavelmente chegaríamos à outra ponta e nos perguntaríamos sobre os gênios, os heróis, os estadistas, os banqueiros... Não é possível compreender os grandes sucessos e fracassos do ser humano sem englobar as minorias no cálculo. O novo século, com sua mobilidade extrema, nos impõe uma mudança de visão. Para compreender o mundo que estamos criando já não é mais possível tomar o todo pela maioria. A menor das minorias de hoje seria o bastante para assustar os exércitos romanos de Júlio César em seu momento de maior glória.


Relativismo e dicotomia conceitual

A dinâmica social que produzimos enfraqueceu tanto os limites entre as categorias que já não se trata mais de um problema conceitual. O conceito, na verdade, tem atrapalhado muito mais a integração para a qual caminhamos do que ajudado. Até conceitos simples como saúde e doença tem se tornado cada vez mais difíceis de estabelecer. O relativismo conceitual permite que um inglês se beneficie do sol do meio dia no verão mesmo quando este é terrivelmente atacado no Brasil como o maior causador de câncer de pele. As condições climáticas, as exceções a que o inglês está submetido, transformam a proibição brasileira em estímulo inglês. E o mesmo acontece com a maioria dos conceitos dicotômicos que desenvolvemos ao longo da era cristã.

O mundo polarizado que a era cristã criou engessa o comportamento em positivo ou negativo, ignorando as variáveis minoritárias que em conjunto tornam-se a maioria daquilo que permeia as atitudes e tomadas de decisão de um indivíduo. Ignorar os detalhes em prol de uma teoria abrangente esvazia a própria teoria. A teoria da geração espontânea parecia ótima, exceto por um detalhe imperceptível: a vida microbiótica. Depois do microscópio essa teoria simplesmente não teve mais como se sustentar. Os pequenos detalhes podem fazer toda a diferença para a nossa compreensão do mundo e incorporá-los ao conjunto de conhecimentos só pode ampliar o mesmo.

Há ainda uma enorme influência do pensamento dicotômico na forma como o ser humano tenta organizar sua compreensão do mundo. Por muitos séculos, quiçá milênios, fomos educados para interpretar o mundo desta maneira. Entretanto, usando um exemplo extremamente rotineiro, o pensamento dicotômico não nos ensina a escolher entre os vinte tipos de cereais matinais existentes na prateleira do "super" mercado produzindo uma ansiedade que até então não existia. A quantidade de conhecimento que o ser humano acumulou ampliou tanto o volume de variáveis com as quais temos que lidar que o mundo simplesmente não faz mais sentido quando olhado pelo ponto de vista dos nossos avós.

O pensamento humano urge uma nova lógica, mais integrada, que unifique mais do que exclua. Essa necessidade pode ser vista onde quer que se olhe. O excesso de exceções demanda uma reorganização lógica para que as explicações voltem a fazer sentido. A resistência e as tentativas de remendar a velha estrutura só prolongam a mudança inevitável. A globalização é um conceito que ganhou amplitude sem igual com a chegada do novo século e seu salto tecnológico. Daqui para a frente não há como evitar que as fronteiras se toquem e com isso se permeiem tanto que já não faça sentido considerá-las. Vivemos em um mundo no qual o seu problema é também o meu problema, mas juntos somos tão grandes que somos capazes de maravilhas que antes cabiam apenas aos deuses...

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