Quando escrevi o texto "USA - um império efêmero" ainda não tinha me demorado a pensar a relação dos famosos massacres americanos com o american way. Conclusão um tanto óbvia, mas que tem desdobramentos interessantes. Atualmente, quer levados por crendices como a do calendário maia, ou simplesmente por desespero financeiro, os americanos têm se deparado cada vez mais frequentemente com o problema da saúde mental de seus compatriotas. Ora é um filho de alguém que causa um massacre em uma escola, universidade ou aglomerado de pessoas qualquer, ora é um pai que mata o filho em um ritual caseiro de exorcismo ou simplesmente porque ele não parava de chorar.
Mas o que se passa naquele país afinal? Há algo que possa ser feito para impedir estes acontecimentos brutais? Perguntas pequenas para a profundidade do problema enfrentado pelos americanos. Sei que não é caso para um pequeno texto em um blog e sim para um belo calhamaço para cursos de sociologia e antropologia, mas vamos tentar desenhar alguns rabiscos... O primeiro caso que ganhou a mídia foi Columbine, em 1999. De lá para cá houve vários atentados, incluindo as torres gêmeas, que apesar de parecer diferente, cabe perfeitamente na lógica dos massacres. Então vamos começar pelos pontos comuns aos casos.
Recapitulando o American Way of Life
Este conceito ganhou força no início do século passado seguindo o crescimento dos sentimentos patrióticos pelo mundo. Ele tinha por função criar uma imagem nacional com a qual o americano poderia se identificar e, simultaneamente, se diferenciar do restante do mundo. O crescimento econômico que os EUA conquistaram depois da crise de 1929, a própria crise em si e a vitória após a segunda guerra mundial seguida da polarização hegemônica com a Rússia foram fatores extra que contribuíram para que o tal conceito ganhasse proporções impossíveis de serem antecipadas na época. Quase 100 anos depois do início das propagandas, o american way tem se mostrado cada vez mais descontextualizado, de forma que o que antes foi motivo de orgulho, esteja agora a um passo de tornar-se uma teimosia que já dura tempo demais.
O estilo de vida americano foi pensado como ideal a partir do qual os americanos pudessem ser medidos e comparados. A família ideal, o americano ideal, o romance ideal, tudo era respondido pelo modelo. Em uma época na qual o mundo parecia que se acabaria em guerras havia um motivo claro para fazer a manutenção de uma identidade nacional: o patriotismo move o guerreiro. Ao mesmo tempo, a observação cuidadosa do padrão facilita a identificação de elementos externos à cultura. A família nuclear, cristã, linda e loura, residente de um condomínio fechado no subúrbio tornou-se o padrão. E tudo ia bem enquanto havia o contrapeso: o demônio comunista.
A bilateralidade do pensamento (o capitalista bom versus o comunista mau) é a pedra fundamental da organização cultural americana do século passado. Essa bilateralidade permitia ao americano médio expurgar sua culpa sem reflexão profunda. O que é mal, vem de fora, o que é bom, vem de nós mesmos. E os "maus" devem ser identificados e aniquilados antes que consigam trazer o caos para dentro da sagrada ordem americana. Foi quando o contrapeso caiu, que a vitória recebida com festa se voltou contra o vitorioso.
O inimigo morto e os demônios à solta
Com a queda da URSS os americanos ficaram livres para espalhar seu modelo pelo mundo. Só não foi levado em conta que o estilo de vida americano servia para delimitar o que era América e o que não era. À medida em que o mundo começa a converter-se em uma grande América global os fatores de identificação vão perdendo o sentido. Enquanto os EUA permanecem como única potência mundial uma enorme corrente migratória traz o estrangeiro para dentro de casa e começa a alterar os elementos centrais do ideal americano. Primeiro foram os mexicanos com seu catolicismo, depois os chineses, indianos, muçulmanos... Um após o outro estes povos foram modificando a paisagem americana com suas comidas, roupas e hábitos diferentes. Mas o americano não deixaria sua identificação se perder sem uma boa luta.
Para fazer frente à globalização em seu próprio país, da década de 90 para cá os americanos começaram a se tornar cada vez mais radicais. Houve uma explosão cristã já na última década do século XX que reforçava a identificação pela via religiosa, ponto de divergência cultural com os mexicanos e latinos que invadiam o país. Um outro ponto era a comida típica, hamburgueres, cereais matinais e pepsi, contra tacos, feijões e tequilas. Na ausência de um inimigo a altura, fazendo apenas pequenas manutenções militares em países estrangeiros para escoamento de produção, os americanos voltaram a guerra para dentro de casa e elegeram vários párias a serem perseguidos a fim de manter a cultura que se desenvolveu por tantos anos alimentando-se de uma espécie de patriotismo belicoso.
Crise de identidade
Foi no final da década de 80 que o bulling nas escolas consolidou-se no roteiro dos filmes sobre a juventude. Os americanos inauguravam a xenofobia como cultura. Já não era o comunista que ameaçava, mas o diferente. Talvez os romanos tenham vivido o mesmo dilema quando optaram por unificar Roma sob a égide de uma só cultura, o catolicismo, já nos últimos momentos de seu grande império. A questão é que os americanos se agarraram ferrenhamente a um modelo muito estreito e tudo o que fugia ao padrão começou a ser perseguido desde os mais tenros anos da infância.
Aproveitando o crescimento científico-tecnológico que teve lugar depois da guerra fria muitas novas teorias médicas e psicológicas começaram a ser desenvolvidas e testadas. A psiquê do americano moderno era o foco e o objetivo era a padronização dos desejos. Sem guerras era necessário criar um novo meio de direcionar o desejo das massas e o governo escolheu a manipulação pela propaganda, em moldes bem parecidos com os que se desenvolveram na Europa décadas antes. As crianças que não se enquadravam, conforme a gravidade do desvio, poderiam ser tratadas com terapias, drogas ou internação. Foi a era da hiperatividade e do transtorno do déficit de atenção nas escolas dos EUA. Sem saber os pais iam tornando-se reféns voluntários da tirania infanto-juvenil.
O jovem e o lucro
O consumismo era extremamente sedutor para as crianças e jovens bombardeados com propagandas de produtos diversos. Em nome do lucro o capitalismo americano elegeu a juventude como ponto alto da vida. Deu-se início a uma cultura de hormônios à flor da pele. O culto ao corpo escultural, à satisfação imediata do desejo, ao juízo precipitado e absolutista, o culto ao jovenzinho mimado. Com o passar dos anos os americanos iam tornando-se intolerantes à frustração, agressivos e desrespeitosos. O jovem sem modos tornou-se o adulto mal-educado do supermercado, o velho rabugento do andar de baixo, a criança irritante e maldosa do vizinho, o mau humor espalhou-se pela sociedade como um virus. Mas apesar dos inconvenientes, a infelicidade dava lucro e era isso que importava.
A intolerância foi crescendo e em 1999 dois jovens tiveram a grande ideia de se munirem até os dentes, ir até a escola onde eram frequentemente discriminados e humilhados e atirar em todos que cruzassem seus caminhos, se matando em seguida. Daí para frente a lista de massacres é grande, shopping, cinema, lanchonete, os lugares variam, mas em geral estão localizados em comunidades pequenas ou fechadas nas quais a pressão pelo padrão e o isolamento cultural são muito maiores que nos centros urbanos. Há sempre fatores comuns ligando os casos que, com a recorrência, acabarão ganhando categoria própria no DSM, já que psicopatia só explica muito forçosamente a condição mental destas crianças e jovens.
O psicopata e os chacinadores
Um psicopata tem comumente em seu histórico um passado de humilhação dentro de casa; comportamentos inapropriados e abusos por parte de um dos pais ou ambos; dificuldade de relacionamento interpessoal; e muito comumente mantem hábitos de reclusão. Ao contrário dos chacinadores eles são pessoas que em geral sabem manter os valentões afastados. Seu jeito perverso de pensar o mundo lhe dá instrumentos que não encontramos facilmente no segundo grupo. O que é comum encontrar entre os chacinadores são pais extremamente atenciosos, que muitas vezes abrem mão de suas vidas para dedicarem-se aos filhos que são compreendidos como portadores de alguma condição desconhecida sobre a qual não têm domínio. Essas crianças superprotegidas não desenvolvem mecanismos de defesa contra o outro como os psicopatas, porque o ambiente excessivamente amoroso não cria necessidade de defesa. Quando sofrem bulling na escola ele é extremamente vulnerável, não está habituadonem à crítica, nem a ter seus desejos impedidos. Agredidos, gritam pelos pais que movem o mundo para defendê-los.
Ambos apresentam ausência de empatia, mas por motivos completamente diversos. O psicopata, agredido por quem devia amá-lo, fecha-se ao outro, identifica-o com o mal e o aniquila. Já os chacinadores, apesar de todo o amor recebido em casa, nunca foi cobrado, ou ensinado?, a levar em conta os desejos do outro. A satisfação imediata de seus desejos, sem responsabilidades e cobranças, sem limites e condições, fazem com que aprenda que o outro existe apenas para servi-lo. Não há a necessidade de levá-lo em conta e quando contrariados, reagem como é peculiar a uma criança de dois anos frustrada.
Os chacinadores e suas famílias aceitam de bom grado os diagnósticos que lhes evitem confrontar-se com sua própria covardia tornando-se cada vez mais exigentes e insatisfeitos. Tais pessoas não toleram a frustração e quanto mais velhas ficam, mais agressivas e autoritárias. Os hormônios da adolescência, quando começam a impor-lhes a necessidade de ir além das relações familiares através do confronto com a autoridade paterna, acaba jogando-lhes em um mundo hostil no qual não conseguem encontrar apoio. Este é o momento de báscula para o chacinador, o momento em que ele deve sair do ninho e tornar-se um eu autônomo ou sucumbir ao amor familiar e tornar-se definitivamente o "doente mental" que sempre se sentiu confortável em ser. Quando o processo dá errado ele é impelido a aniquilar seu mundo e a si mesmo.
Coisas do amor ou amor às coisas?
A cultura que se desenvolveu nos EUA gerou dois efeitos colaterais fundamentais para compreender a mente dos executores desses massacres. O primeiro diz respeito à questão das aparências. Em um mundo onde o diferente é execrado, a manutenção do status pendeu para a aquisição de objetos que demonstrem a posição social e a identidade de grupo, podendo ser reconhecidos à distância (para não haver dúvidas!). O segundo refere-se à confusão que o estímulo ao consumismo gerou identificando a demonstração de afeto com o ato de presentear as pessoas. "Um diamante é para sempre". O amor e o status foram transferidos para os objetos e as próprias relações humanas passaram a ser entendidas como relações com objetos e não com outras consciências. Neste sentido, a frágil estrutura psicológica do jovem às voltas com suas mudanças biológicas se vê ainda mais ameaçada e agarra-se com força às referências deturpadas que tem como modelo na tentativa de sobreviver a esta fase cujo contexto social não facilita em nada.
O problema da culpa e da responsabilidade
É conhecido desde Adão o hábito cristão de apontar o dedo para o que está do lado e dizer; "a culpa é dele". O governo diz que são as armas e os clubes de tiro, estes dizem que são os jogos e filmes violentos, as produtoras dizem que são as famílias, estas apontam para a escola, a escola diz que é o governo e assim sucessivamente. Neste ciclo vicioso o debate dura eternamente e não se chega a lugar nenhum. Convenientemente continua-se comprando para tampar o buraco da existência; quanto maior a confusão, mais fácil vender quinquilharias da felicidade. Igrejas, psicólogos, médicos, indústria farmacêutica e bélica, lojas de sapatos, planos de saúde, revistas de moda, políticos de ambos os lados; os "1%" saem ganhando de um jeito ou de outro.
O que a mentalidade cristã evita que se perceba é que não é uma questão de culpa, mas de responsabilidade. Adão não perdeu tudo por ter desobedecido; para isso há o perdão. Adão foi expulso porque não assumiu a responsabilidade sobre seus atos, não arrependeu-se, mas jogou sobre o próprio deus a culpa de ter-lhe dado uma mulher desobediente. É o mesmo que os americanos têm feito com relação aos massacres. Deseja-se achar um culpado, alguém ou algo para ser sacrificado e apaziguar a angústia de não saber. Mas nessa história não há culpados, há responsáveis agindo com irresponsabilidade.
Os pais, filhos da cultura desorientada das décadas de 60 e 70, decidiram inovar e não corrigir seus filhos nos moldes de seus pais. O setor de saúde antecipou-se e produziu milhares de livros sobre educação, sexualidade, auto-ajuda e outros, todos extremamente mal interpretados e mal aplicados nas mãos de milhares de leigos. Desenvolveram-se drogas para atuar no cérebro e induzir comportamentos com pouco tempo de testes. Os professores, percebendo o quão mal educados e intransigentes os alunos chegavam às escolas, em vez de pesquisar e produzir novas teorias, deram um passo atrás e decidiram não trabalhar como vetor de valores culturais, limitando-se a ler livros didáticos, pré-aprovados pelos políticos do momento, em voz alta para a classe.
O mercado achou ótimo o quanto essas crianças e jovens obrigavam seus pais a gastar para satisfazê-los. O governo, feliz com o mercado, deixou a educação parar no tempo, incentivou a cultura da medicação para controlar o incontrolável e em nada se preocupou com o aumento da população e a venda indiscriminada de armas e munições de guerra ao público comum. A comunidade continuava apoiando políticos interessados apenas em suas contas bancárias. A mídia estimulava o pânico com noticiários sanguinolentos todos os dias para reforçar a sensação de que o inimigo mora ao lado. O cenário para o caos estava pronto, só faltava o primeiro ter a ideia.
Não são culpados, são responsáveis. Cada setor, cada indivíduo da sociedade, quer estimulando, quer fechando os olhos, todos tem parte com o caos em que a sociedade americana se encontra. Sem assumir sua parcela cada um fica imobilizado em seu lugar sustentando o que vai de mal a pior até que caia sobre suas cabeças. A responsabilidade permite que a intencionalidade seja retomada pelo eu que age. Cada um pode mudar sua postura diante da vida assim que queira, pois não há uma vítima que sofre as injustiças da vida, mas um eu que pode pensar em uma outra maneira de ver as coisas e evoluir, mudar. Se der errado, pode mudar de novo até acertar, porque ele é dono de suas escolhas e responsável pelas consequências que elas geram. O desejo não é mais mudar o outro que erra, mas o que é possível a si mesmo para quebrar o ciclo de erros de todos.
A exaltação do eu quebrou o sentimento de comunidade do povo americano. Aquele povo amável que levava torta na porta do vizinho novo para saudá-lo continua levando as portas, mas agora é para sondá-lo. Quanto menor ou mais fechada a comunidade, maior a desconfiança com o diferente. A guerra ao terror não ajuda em nada, reforçando a paranoia coletiva. A fragilizada estrutura social, imobilizada pela culpa e pelas auto-acusações, pende de um lado para o outro conforme o senador tal ou qual fala a frase de efeito da semana. Um povo sem auto-crítica, à mercê das propagandas, impulsivo e obeso... É difícil pensar um cenário pior.
A pressão social a que o americano médio está submetido não é justa e descamba em diversos sintomas de inadequação. As pessoas que chamei de chacinadores são apenas mais um grupo (que não se agrupa) de indivíduos inadequados. A terra da liberdade, no fundo, tem um espectro muito estreito de liberdades possíveis de serem sustentadas sem conflito e essa incongruência dificilmente poderá ser resolvida pelas velhas respostas. Quem sabe olhando um pouco para sua própria história os americanos não possam evitar cometer o mesmo erro de sempre? Um povo que não conhece a sua história, está condenado a repeti-la.
