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Arte fato V - ou, a arte em bytes




Série Arte Fato:

Na última parte deste estudo chegamos à arte hoje. Lembro de ter lido em uma revista que a década de 1990 ficaria marcada pela ausência de estilo. De fato, as três últimas décadas tem sido difíceis de se definir. Quando procuramos literatura a respeito nos deparamos com teorias contraditórias, análises fragmentadas, uma verdadeira confusão conceitual, ou simplesmente, informação nenhuma. A impressão que se tem é de que depois do modernismo, com a abolição da "legislação artística", os movimentos se fragmentaram em inúmeras tendências ou em tendência alguma. Mas não foi bem assim que aconteceu.

A proximidade dos eventos e a velocidade que as mudanças ganharam nas últimas décadas deixou tudo muito confuso por algum tempo. Essa confusão se refletiu também na arte que a década de 80 produziu. A própria crise de valores que a sociedade vivencia, nossa tentativa de dar sentido a essa realidade multifacetada e hiperdinâmica que criamos ao nosso redor. A globalização não atingiu apenas a cultura ou a economia. Hoje não se compra uma máquina de lavar roupas simplesmente. É necessário escolher entre a que tem secadora embutido, lava com água quente, é econômica, tem duplo enxágue ou apenas centrifuga.

A arte refletiu essa tendência às fusões. O cinema já surgiu fundindo a fotografia, a música e o teatro em uma só arte que se tornaria cada vez mais complexa. A liberdade de criação era imensa. Pode-se dizer que era exatamente isso que acontecia com o homem da década de 80. De repente tudo era permitido, como queria Nietzsche, e o homem nunca havia visto tanta liberdade junta. Foi um período fértil para a criatividade e para a publicidade.

O contraste das múltiplas escolhas adornadas no neon da propaganda, cujas formas jamais se encaixam perfeitamente para satisfazer o desejo que pela primeira vez "pode e deve!" reinventar-se livremente como um choque térmico depois da era da estandardização do eu que a guerra fria havia promovido. Isto é o homem e a arte da década de 80. Like a virgin touched for the very first time... Deslumbrado, assustado, deslocado. A modernidade atropelou o ser humano com o rolo compressor da satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. 

Na década de 90 a cultura pop varria livremente o globo transformando vestimentas, disseminando a língua inglesa, mudando hábitos alimentares e elevando a multiplicidade de escolhas a extremos mundiais. Viajar ficou fácil, comprar produtos importados, assistir televisão estrangeira. Like a virgin entrou em crise e foi substituída pelos filhos dos Menudos, os New Kids on the Block, que dispensavam traduções. A coca-cola virou elemento cotidiano na arte. No Brasil os artistas que marcaram uma geração inteira com a Tropicália simplesmente desapareceram e foram substituídos por músicas eletrônicas.

Começou a surgir uma sensação generalizada de falta de referência. As crianças vestidas como mini-adultos queriam cada vez mais, os pais não sabiam em quem acreditar ou o que os seus filhos falavam e especialistas pipocavam por todos dos cantos das grandes cidades. Os professores foram massacrados pela pressão do vestibular e do mercado. Ninguém sabia no que isso ia dar, e o experimentalismo da década anterior começou a fugir do controle. Então começaram a prescrever remédios e formular teorias. Para todo mundo!

A arte também enfrentou uma crise análoga com a digitalização. Os CDs e DVDs baixaram o custo de produção; a internet trouxe o Louvre para dentro de casa; a impressora colorida criava a primeiras fotografias digitais; o pop afogava as pessoas em uma tsunami de ofertas de música sintética. A ficção ganha força nesta época. Viraríamos todos números? A arte se converteria em bites como os humanos em robôs quimicamente controlados?

À medida que o novo século se aproximava procurávamos mais desesperadamente algo a que nos apegar para não sucumbir à total falta de identidade. Vemos o politicamente correto modificar hábitos em uma tentativa de reverter a anarquização quer na arte, quer na sociedade, que teve seu clímax em meados da década de 90. Preocupações com o meio ambiente, bem estar social, justiça e direitos humanos povoam a literatura e as conversas do cotidiano.

O século acaba deixando o mundo do mesmo jeito de sempre. Sem apocalipses do milênio, sem grandes mudanças políticas, sem retornos messiânicos ou invasões alienígenas. Permanecíamos sozinhos como sempre. O politicamente correto, apesar de continuar crescendo não pôde conter a liberdade. Os anos 2000 foram marcados pela entrada dos Tigres Asiáticos no mercado mundial, abarrotando o mundo de ofertas baratas. Gaste, gaste muito! Todo tipo de quinquilharia foi inventada ou reinventada na primeira década. E a qualidade se tornou o elemento mais raro do mercado. Nosso maior problema já nos primeiros anos do novo século era o lixo. O lixo reciclável, industrial, eletrônico, nuclear, hospitalar. Tornamo-nos o Homo Polluters.

Essa movimentação econômica favoreceu incrivelmente o desenvolvimento tecnológico e científico. A música Techno que vinha se desenvolvendo desde a década anterior ganhou as Raves, misturou-se com um estilo de vida cada vez mais hi-tech. Paralelamente crescia o Funk carioca e o sertanejo universitário marcando a ascensão da cultura do morro e a universidade acessível ao campo.

Uma quantidade enorme de quadros famosos impressos a laser podia ser encontrada em qualquer shopping. As fotografias pessoais podiam ser copiadas ou modificadas infinitamente a baixíssimo custo. A poluição atingiu também as produções artísticas e tornava-se cada vez mais difícil peneirar o agradável entre tanto lixo. Parecia que a arte havia perdido completamente o sentido, que qualquer "coisa" podia ser arte, que já não havia limites.

O mundo da satisfação pessoal não conhece limites. Se tem quem goste, alguma loja vende. E o ser humano sem as rédeas da padronização pode ser muito criativo em seus gostos. Muito criativo. À medida em que exercíamos cada vez mais liberdade (especialmente a liberdade de consumo, mas também outras) novas gerações iam surgindo sem nunca ter conhecido a repressão. O excesso de oferta faz cair a qualidade geral, entretanto já havia uma geração inteira que nunca tinha conhecido algo diferente. O culto do eu parecia que ia destruir tudo com uma voracidade incrível quando atingimos a marca de 7 bilhões de pessoas em 2005 e o mundo ficou assustado. Finalmente a liberdade nos confrontaria com a responsabilidade.

O consumismo exacerbado está há alguns anos de sua ruina. A insatisfação na qual o homem se movia há 3 décadas começa a dar lugar à reflexão e a crítica. Assim como no modernismo e no romantismo, a arte dos últimos 40 anos repete os mesmos estágios de suas matrizes originais. O momento de deslumbramento pueril, o de libertinagem juvenil e a maturidade engajada e crítica. A crise de 2008 pôs o mundo humano contra a parede. Houve um rápido crescimento do politicamente correto, que logo retrocedeu frente às duras críticas em defesa da liberdade. Há um movimento crescente de reflexão sobre os principais conceitos que estruturam a sociedade atual e uma tendência ainda não muito definida à denúncia despudorada.

Na linha do politicamente correto vimos surgir a perseguição à pirataria, a guerra dos direitos autorais e das patentes, formas de regular (leia-se censurar) a mídia, de extrair lucro até da casca seca. Mas a liberdade já havia durado tempo demais e as novas gerações, apoiadas na comunicação global, não aceitou muito bem a utilização de velhos mecanismos de controle na sociedade do novo século. Depois de muito embate começaram a surgir algumas soluções novas. Artistas divulgando gratuitamente suas músicas, livros digitais, arte computadorizada, portais de músicas royalty free, sociedade e artistas começaram a encontrar soluções mais adequadas aos seus problemas.

A arte dos últimos anos tem se voltado cada vez mais para a crítica da hipocrisia, lançando mãos de enfoques dignos da filosofia do martelo de Nietzsche. A queda do poder manipulador da propaganda nos moldes americanos marca um movimento de auto-reflexão diante da desilusão do sonho de completude pelo consumo. Também o conservadorismo tem se tornado cada vez mais velho e anacrônico. Em um mundo onde as aparências foram exploradas até que nada restasse, a única matéria prima que ainda permanecia inexplorada era a sinceridade. Da mesma forma que a sociedade resolveu olhar para si e repensar a própria cultura de maneira menos preconceituosa e mais calcada na realidade dos fatos, repetiu a arte.

Enquanto socialmente revemos conceitos como homossexualidade, família, corrupção, distribuição de renda, poluição e tantos outros, também a arte se redefine. Essa redefinição não se refere desta vez, como nas outras, à produção e seus processos, mas mais especificamente à sua função. A arte denúncia tem se caracterizado pela utilização da licença artística para desmascarar o que resta de velho no mundo. Exposições de tipos diferentes de anus ou vaginas, homens nus simulando fazer sexo com uma ponte em um dia cinzento, pichações provocativas, charges confrontando o tabu islâmico, filmes e livros sobre histórias de intolerância e repressão tentam fazer ruir o que restou da velha moral sem nos deixar esquecer dos tempos em que liberdade era só um conceito incerto.

A qualidade tem voltado ao foco e no meio da multidão sem rosto a humanidade parece estar desenvolvendo seus próprios filtros pessoais com a consciência de que gosto não se discute nem se impõe. A arte perdeu completamente suas amarras com a forma e a métrica, chega a parecer irreconhecível às vezes, mas no século da diversidade é necessário deixar bem claro que o belo é sim uma condição muito subjetiva dos objetos. 

O homem da década de 10 é um sobrevivente da overdose de sensações que a transição dos séculos gerou. Ressaqueado, faz promessas de nunca mais sentir tanto, mas ainda tem no horizonte a possibilidade de recaída. A arte, abandonando também o campo do arrebatamento estético, começa agora a dirigir-se para o cotidiano e ganhar tons de engajamento para promover a mudança de valores que começou lá atrás, mas que ainda falta um golpe final para se consolidar. É neste ponto da história da arte que somos obrigados a parar a narrativa, daqui para frente ainda está nas mãos do futuro e da imaginação. No capítulo final desta série tentarei analisar o artista da era digital em sua relação com o olhar do outro.

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