[continuação do texto: "O desenvolvimento do pensamento humano I - da magia à ciência"]
A sociedade humana que se organizou depois da Revolução Industrial acrescentou incontáveis novos elementos à nossa realidade. O cérebro humano a partir do final do séc. XX não teve mais sossego e o conhecimento se transformou na principal ferramenta do homem para manipular o mundo à sua volta. Primeiro foram os correios, livretos e folhetins, depois o rádio, o telefone, a TV, a internet... A comunicação entre os seres humanos ampliou de tal maneira que tornou-se impossível impedir o conhecimento e a troca de informações.É imprescindível compreender o poder transformador das trocas culturais. O comércio entre os povos é o principal motor para o avanço cultural e tecnológico das sociedades humanas. Explico-me. Toda comunidade isolada cria para si fórmulas para compreender o mundo e os outros. Ritos de passagem, papéis sociais e divisão do trabalho, mitos, medicinas, as variações que encontramos entre as inúmeras sociedades humanas apontam para a não existência de uma fórmula universal pré-definida. Não há um jeito certo de fazer, apenas tentativas e erros que precisam necessariamente responder ao ambiente específico no qual o grupo está inserido.
Viajar é aprender
Enquanto um determinado grupo permanece isolado, sua cultura varia muito lentamente, pois a necessidade de novas respostas ocorre de forma muito ocasional e pouco duradoura para deixar marcas profundas. A partir do momento em que este grupo entra em contato com um outro grupo, haverá necessariamente um choque cultural, pois as respostas do segundo grupo aos problemas comuns à existência de ambos, dificilmente será idêntica à do primeiro. O próprio encontro, sem aprofundamento maior, já traz vários novos pontos que a consciência deverá considerar. A começar pela determinação do que representa a presença deste novo grupo naquele território. Depois do encontro, novas considerações, jamais pensadas, precisarão brotar para dar conta do que até então não existia.
E assim caminha a humanidade, de encontro em encontro, somando, destruindo, modificando. A cada encontro com um novo povo, novos questionamentos, novas respostas, novas possibilidades surgem para ambos e é inevitável a comparação. Esta capacidade de traçar paralelos e aprender com a diferença não é exclusividade humana, mas precisamos confessar que nossa curiosidade não nos deixa quietos. Uma vez descoberta a possibilidade de outros povos, quantos mais existiriam? Podemos encontrá-los? São bons? São maus? E se nos encontrarem primeiro? O que irão querer de nós? Hoje, com os povos em sua quase totalidade descobertos e bem apontados no mapa, não nos perguntamos as mesmas perguntas acerca do que haverá lá fora, nas estrelas? Necessitamos conhecer. Se há um instinto no ser humano bem definido e comum a todos é a necessidade de saber.
É certo que nem todo ser humano tem vocação para gênio, mas precisamos conhecer as habilidades necessárias para nossa sobrevivência. Quem planta precisa conhecer as estações, quem pesca, conhece os hábitos do peixe, sabe dos jacarés, espera a piracema. Cada atividade humana cotidiana foi um dia um aprendizado interessante e digno de grande dedicação. Então, o contato também tornou-se uma necessidade. O desenvolvimento tecnológico, a cada passo, leva a sociedade que o produz a um nível mais alto de organização. A descoberta da agricultura, por exemplo, permitiu o assentamento dos grupos humanos e com isso, o aumento considerável da quantidade de indivíduos que o grupo conseguia suportar em seu seio. E à medida que as sociedades cresciam, crescia também seu conhecimento, seu alcance sobre o planeta e sua necessidade de territórios maiores. O que antes eram tribos com parcos conhecimentos, agora são nações com línguas, leis e costumes próprios que começam a desenhar fronteiras para assegurar sua identidade.
As nações e o problema da identidade cultural
Quando surgem as nações, o comércio e as trocas culturais já são frequentes, fazendo com que os povos precisem apegar-se a certas peculiaridades a fim de se manterem unidos e distintos dos outros. Ao mesmo tempo que se fortaleciam, também se modificavam e vimos ao longo da história humana velhos hábitos de um povo de lá serem retomados, séculos depois por um outro povo de cá. Muitas vezes percebemos que aquilo que serviu um dia a um povo, virá a servir a outro, com problemas semelhantes muitos anos mais tarde, pois os povos não evoluem todos à mesma velocidade. As nações surgem diante de uma nova ameaça, o humano com interesses muito diferentes. Quanto maior a distância que o ser humano torna-se capaz de percorrer, mais variada é sua paisagem, seus eventos naturais, seu clima e as culturas que os agrupamentos desenvolverão para responder a estas condições distintas. A nação protege o homem de perder-se, de perder seus valores, o respaldo de seus costumes e conhecimentos em meio à diversidade que nosso planeta produziu.
Como todas as respostas do ser humano ao seu meio, o surgimento das nações também trouxe consigo novos problemas. A identificação ideológico-cultural que a nacionalidade promovia, com o passar do tempo foi dando lugar a uma competitividade que se acirrou demasiadamente com o passar do tempo. Povos com interesses contraditórios se arremessavam em guerras julgando-se distintos e superiores em nome de uma definição arbitrária. Com o reforço do pensamento religioso, a autoridade do governante foi suficiente, durante milhares de anos, para manter a estrutura nacionalista nas sociedades humanas. Apesar de todos os problemas gerados, as nações foram suficientes para oferecer aos indivíduos sob sua égide os pontos de identificação necessários para manter a governabilidade a despeito do constante estímulo do comércio exterior.
Identidades exageradas, trânsito demais...
O ápice e consequente derrocada deste sistema aconteceu com a Revolução Industrial. Como de costume, novas tecnologias, novos problemas. A produção em massa respondia não só à crescente demanda de sociedades em franca expansão populacional, como também à necessidade de insígnias de cada povo. De certa forma, instaurou-se com a revolução industrial uma nova divisão do trabalho. Esta agora atingirá as sociedades, os povos. A partir da revolução industrial uma tendência que já existia desde o colonialismo ganhou força e os povos especializaram-se. O mundo dividiu-se em fornecedores de matéria-prima e produtores industriais. Cada povo com seu produto de orgulho, seu símbolo nacional. Mas houve ainda um outro avanço determinante para tudo que ocorreria a seguir, a revolução trouxe avanços também à instrumentação científica e deu novo fôlego à busca de respostas para os problemas mais básicos dos seres humanos. Assim como a indústria, a produção científica também cresceu muito a partir do séc. XVIII.
Não obstante o cientificismo já estivesse presente no pensamento humano de forma mais ou menos constante desde a Renascença, a revolução industrial permitiu alcançar uma tecnologia até então inimaginável. Houve uma grande corrida pelo conhecimento e obter o domínio sobre determinada tecnologia tornou-se de grande interesse político e econômico. Todo tipo de pesquisa foi produzida a partir do final do séc. XVIII resultando em vários tomos e compêndios sobre quase tudo. Somado a isto o boom populacional que as novas tecnologias resultaram, o problema dos territórios apertados, o trânsito de pessoas e informações sempre crescendo aumentando também os encontros e choques culturais, os questionamentos, a crise das identidades nacionais, os confrontos de interesses políticos, o colapso do colonialismo... Temos um planeta pequeno para nosso grandioso futuro.
Crise de identidade global e os interesses políticos
O pensamento científico, que já vinha fazendo aparições aqui e ali na história da humanidade européia desde o séc. XIV, surgiu dentro de um contexto onde já não havia mais a preocupação grega de deixar bem claro o que é observação empírica, dedução, inferência ou conjectura. O pensamento religioso respondia há milhares de anos com a lógica dos mistérios e não é fácil perceber a diferença entre imaginação e realidade quando se vive há tanto tempo em um mundo onde todas as explicações oferecem sempre uma incrível plasticidade interpretativa. Facilmente a ciência dos séc. XVIII e XIX incorriam no erro da conjectura. Sem instrumentação suficiente, mas já vislumbrando padrões explicativos, muito cientistas escreveram grandes obras sem qualquer respaldo efetivo, com métodos altamente duvidosos e patrocinadores altamente suspeitos que definiam, de forma contundente, os mais variados âmbitos da ação humana.
O contexto histórico onde tudo isso aconteceu era de ruptura. Os avanços que a revolução industrial permitiu aumentou a expectativa de vida, inchou as cidades, promoveu novas demandas locais. O colonialismo demorou séculos para ruir completamente e guerras de independência e confrontos civis eram comuns por todo o planeta. O trânsito que a Europa provocou com tais políticas criou divisões complexas dentro das sociedades, relações exploratórias e movimentos sindicais, racismo, exclusão social de várias "classes" de pessoas e ao mesmo tempo, como uma reação compensatória social, reforçou os sentimentos nacionalistas pelo mundo. As nações, levadas pela necessidade de conseguir soberania sobre seus territórios, lançaram mão desta nova tendencia "científica" de produção do conhecimento, misturaram com muito interesse político, corrupção e coronelismos para fazer surgir uma nova forma de patriotismo. Um patriotismo quase médico, de raça, de sangue... A primeira guerra foi pouco para resolver os embates a que chegamos.
O crescimento da ciência no seio da sociedade industrial superpopulosa não passou de um grande "meter os pés pelas mãos". Se hoje verificamos muitas afirmações feitas naquela época, não podemos dizer, de forma alguma, que o autor já sabia o que hoje sabemos ou que sua intenção era chegar onde chegamos. E muitas afirmações foram feitas, assim como muitas más conquistas... Muitas foram mesmo tomadas por verdade à guisa de prova. A gana de substituir o mistério por uma explicação plausível trouxe muitos embaraços e alguns persistem até hoje. Quando a fenomenologia surgiu, questionando o papel do observador e seu olhar tendencioso, talvez não tenhamos dado-lhe a importância adequada, pois até hoje é necessário separar aquilo que é peculiar ao observador, daquilo que de fato ele alcançou com sua observação. Vivendo em uma época de transição, na qual o pensamento religioso ainda é suficientemente forte para influenciar nas decisões políticas, a decisões políticas ainda estão nas mão de um número insignificante de pessoas com muito poder e o pensamento científico ainda não se sustenta sozinho vemos todo tipo de deformidade da informação à medida em que ela se torna acessível ao povo.
Depois de explodirmos tudo... a era da comunicação
Tudo na história humana acontece lentamente. Como espécie, somos ainda um organismo muito jovem, talvez sequer tenhamos alcançado ainda nossa juventude. Vemos tentativas do ser humano em organizar sua experiência de forma a alcançar resultados reproduzíveis ao longo do tempo e do espaço há muitos milhares de anos. Vemos também sua luta para separar o dado empírico da fantasia ganhar força ora para um lado, ora para o outro em ciclos ao longo da história conforme os interesses políticos da época. Mas finalmente algo novo aconteceu. A Segunda Revolução Industrial, promovida pela energia elétrica determinou um ponto sem retorno para o desenvolvimento humano. Daí para frente a ciência adquiriu vida própria e não pôde mais ser exclusivamente controlada pelos governos. A despeito dos interesses das indústrias petroleira e automotiva, o carro elétrico acabaria surgindo e senão ele, outro formato não poluente eventualmente substituirá os bilhões de carros não-ecológicos que hoje vemos entupir as ruas de nossas cidades. A tecnologia já se desenvolve por si só e não há mais como direcioná-la completamente. O conhecimento expandiu de tal maneira que hoje qualquer porão é um laboratório e os avanços podem surgir dos lugares mais impensados.
A eletricidade espantou a noite e os automóveis encurtaram as distâncias. O trânsito hoje é vital para as sociedades humanas que sem ver se misturaram tanto que chega já a parecer que brigas territorialistas ou ideológicas são coisa do passado. Mesmo que aconteçam ainda! O mundo não parou de fazer guerras; elas acontecem todos os dias em algum lugar do globo com uma constância vergonhosa, mas parecem a cada dia um recurso mais desnecessário. Basta notarmos como a postura "diplomática" que o Brasil tem adotado diante das outras nações têm chamado cada vez mais atenção ao redor do globo, enquanto crescem os sentimentos anti-americanos questionando sua política bélica e sua economia consumista. A comunicação constante entre os povos foi intensamente aprofundada com o advento da internet. Seus desdobramentos são de grande complexidade, mas para fins didáticos, digamos que o ponto alto desta comunicabilidade está exatamente em tornar global e irrestrito o conhecimento.
Conhecimento, compartimentos, especialidades
O desenvolvimento de instrumentos de pesquisa cada vez melhores nos faz avançar incessantemente na observação de incontáveis fenômenos. Produzimos conhecimentos de tudo quanto é tipo a todo momento. Mas enfrentamos hoje alguns problemas fundamentais dentre os quais está o excesso de informações, a incomunicabilidade entre disciplinas do conhecimento e os interesses dos poderosos. Uma das consequências do nosso antigo sistema de pensamento foi categorizar excessivamente os conhecimentos. Aquela alienação do trabalho foi repassada ao conhecimento. Hoje temos inúmeras pesquisas sobre os mais variados temas, mas elas não se encontram, não se complementam e assim o conhecimento permanece desconexo, com aplicações práticas limitadas pela compreensão fragmetária. Como consequência, a parcela do conhecimento adquirido que é repassada à população se fixa conforme seu alcance publicitário e ficamos com a sensação de que a ciência se desmente o tempo todo, quando na verdade o que falta é integração dos resultados já obtidos, melhor revisão por pares ou excesso de interesses políticos deformando a informação. Sabemos muito, mas não sabemos quanto. Falta um profissional responsável pela integração das disciplinas e outro para a divulgação do conhecimento de forma popular, mas isenta.
Se por um lado, tivemos Da Vinci e tantos outros multi-pesquisadores que discorriam livremente entre diversas ciências, hoje temos um emaranhado de técnicos que mal compreendem sua própria função.Este estado de coisas nada prático nos leva a crer que ainda não encontramos uma maneira eficaz de nos organizar a partir das mudanças que a eletricidade trouxe consigo. Na verdade, ainda não chegamos sequer à estabilidade de conceitos, uma vez que a qualquer momento surge uma nova tecnologia que muda o modo como fazíamos algo ou compreendíamos determinado assunto. Vindos de um sistema que respondia a tudo (embora fantasiosa, a resposta religiosa acalmava a angústia), ainda não vencemos nem o hábito de lançar mão de conjecturas para preencher lacunas, nem o de permanecer temporariamente sem resposta. E pior ainda, identificamos o papel do cientista ao do antigo deus dos mistérios. Essa identificação, no imaginário popular, distancia a realidade, pois o próprio cientista muitas vezes ainda se confunde, desconsidera suas emoções, seus desejos e expectativas e acaba "contaminando" com elas seus resultados. Por outro lado, o povo não perdoa um erro divino, acostumado que está a submeter-se às intransigências das divindades, aceita mal os recuos e revisões que a ciência faz sobre si mesma, desacreditando-a como se esta já estivesse pronta e concluída em definitivo e um erro fosse a prova de sua falibilidade radical.
Conhecimento e mais-valia
A guerra fria levou a comunicação a um novo nível. Fundada no já bem experimentado método de propaganda que o nazismo testou amplamente, Rússia e EUA polarizam o mundo através da ideologia. O embate entre comunismo e capitalismo, cheio de raízes no pensamento dogmático, manipula as informações, oprime o livre pensar e transforma o que antes era um monte de patriotismos baseados em linhagens e territórios em um problema global de alianças com apenas duas possibilidades categóricas. O conhecimento torna-se politicamente sujeitado e o mundo passa por anos de opressão polarizada. Esse exagero chegou ao seu cume na década de 80, mas com o colapso da união soviética por questões internas a ausência de contra-peso fez a balança tombar.
O capitalismo venceu por força das circunstâncias e o mundo entrou em um novo momento. Sem o peso do "comum" nas consciências, o "capital" ficou livre para devastar o mundo e elevar o sonho industrial a sua potência máxima: o consumismo. O conhecimento, que como podemos ver nunca foi verdadeiramente livre e sempre esteve submetido ao aval do poder, torna-se uma peça importante para a mais-valia do monte de novas "mesmas coisas de sempre" que inundam as prateleiras dos imensos hipermercados. Com tudo comercializável e comercializando-se de tudo, o estilo de vida americano foi vendido pelo mundo afora exaurindo recursos por onde passasse e maquiando o mundo com informações distorcidas conforme o interesse do momento.
Perdidos na modernidade
Povo, cientista, religioso ou político, o fato é que ainda não conseguimos compreender bem o que se passa. Seguem todos inseguros, indecisos, indefinidos. Os "tomos" generalizadores que o séc. XIX tornou populares mostraram-se atolados em equívocos, mas à guisa de outras fontes e diante da ausência de conhecimento frente às novas tecnologias, permanecemos nos referindo a eles como fontes legítimas do conhecimento, quando na verdade o próprio funcionamento cerebral do ser humano hoje é diferente do que havia quando tais tomos foram escritos. Para citar um exemplo sem ofender muitas classes (desculpem, psicanalistas!), vou usar Freud. Médico, Freud estudou hipnose, lançou mão de substâncias psicoativas e desenvolveu todo um método de tratamento fundamentado em uma teoria inovadora sobre o funcionamento psíquico do homem do séc. XIX. Mas Freud não conheceu a televisão, o controle remoto, o computador, a internet, as câmeras de segurança, a mini-saia, o topless, o movimento LGBT, a igreja universal, o interruptor de parede, o carro a duzentos por hora, o trem bala, a propaganda no Japão, a vida na Índia, na China, no Brasil... Sem estes conhecimentos é impossível dizer que sua teoria teria permanecido a mesma, pois as variáveis às quais a sociedade paulista dos anos 2000 responde é muito diferente da sociedade vienense do final do século XIX. A mudança de Freud para os Estados Unidos, no final de sua vida já lhe impôs mudanças radicais na teoria, imagine se fosse possível a ele conhecer os costumes dos povos com a velocidade que podemos fazer hoje!
As pesquisas que desenvolvemos depois de Freud já identificou genes da esquizofrenia, criou tratamentos químicos para compulsões e tristezas crônicas, mapeou o cérebro de diversos indivíduos, redefiniu processos, identificou variáveis que ele não considerou como a influência da alimentação no humor ou na aprendizagem, gerou dezenas, centenas de novas informações acerca do funcionamento cerebral e da consciência. Entretanto, as consequências da história que escrevemos tornou tais conhecimentos distantes um do outro e ainda levará um tempo até que tudo seja reunido de forma coerente. A sociedade da informação tornou o conhecimento acessível à quem quiser, mas em contra-partida a ausência de foco que o cotidiano moderno impõe não nos permite exercitar muito nossas capacidades de síntese. O homem moderno se tornou cético, mas não por um movimento reflexivo acerca de sua história. O ceticismo moderno é reativo. Duvidamos não porque aprendemos a importância dos questionamentos. Duvidamos porque já acreditamos em tanta "propaganda" errada ou diversa que ficamos meio receosos de mudar de postura por um conhecimento que mudará em breve.
Novas tecnologias, novos desafios - precisa-se de pensadores
O homem comum não foi capacitado para "ouvir tudo e reter o que é bom". A crise de valores que a derrocada do consumismo está criando nos deixou também sem muitas referências morais. De certa forma, ao tornar-se laico, o Estado lançou o homem na angústia existencial sartriana, mas num âmbito social. Enfrentamos hoje, perdidos na multidão, o desespero, o desamparo e a angústia característicos dos que abandonaram os deuses. Abandonando deus o Estado também deixou de ser divino e sem poderes atemporais a própria constituição, o código moral do Estado, tornou-se anacrônica. Sem tais referências vemos surgir os mesmos movimentos comuns aos períodos em que a identidade do ser humano entra em crise: grupos fundamentalistas conservadores lutam desesperadamente para manter de pé o que grupos rebeldes insistem em sacudir. Há, no entanto, uma diferença do que até então acontecia: desta vez não há UM pensamento hegemônico que reforce e garanta vantagens à corrente conservadora.
A inundação de conhecimentos que vivemos criou cisões até nos setores mais unificados. A variabilidade é tão grande, os encontros e as trocas culturais tão frequentes, que talvez seja justo chamar nossa época de subatômica, fazendo uma analogia com aquele átomo que o século XIX acreditava ser a menor de todas as partículas. Hoje ele ganhou novos pedacinhos, sabores, direções... Descobrimos que dentro do menor há muitos outros menores.São tantas as dimensões do mundo subatômico que mal lembramos do átomo em si. Criamos uma sociedade global regida por uma espécie de efeito borboleta que integra todas as pequenas sociedades em um todo que ainda não sabemos bem como funciona, mas que quando algo não vai bem em alguma parte, todos acabamos mais ou menos afetados. O que caracteriza nosso século é que a fronteira que dividia os grupos sociais alcançou a atmosfera, unificamos o organismo social humano e a agora a decisão tomada em Tóquio, Washington ou qualquer outra "capital política" pode interferir diretamente na qualidade de vida do resto do mundo. Precisaremos de novas respostas para os problemas que até então jamais tinham existido. Bem vindos ao século XXI e sintam-se em casa para fazer história!