Crises existenciais. Lugar comum para o crescimento ou embotamento das revoluções íntimas. Quando eu era adolescente sentia um verdadeiro prazer em saborear estes momentos introspectivos nos quais todas as minhas verdades íntimas eram questionadas. Assustador, sem dúvida. Mas me parecia irresistível. Com o tempo as tempestades juvenis foram dando lugar à moderada calmaria e mesmice da vida adulta e de tempos em tempos ainda me encontro alimentando uma certa nostalgia pelas velhas crises. Aqueles acontecimentos fugazes da adolescência que tinham gosto de eternidade foram sendo substituídos, com o passar dos anos, pela eterna rotina e as mesquinhas preocupações do cotidiano. As emoções novíssimas e excitantes que a juventude descobre ganham nomes, categorias, pontuações, sinais de alerta... O novo torna-se o mesmo com um piscar de olhos.
Felizmente a natureza nos dotou de uma constante insatisfação. Felizmente para uns, nem tanto para outros, sem dúvida. Me parece que um grande número de pessoas resiste fortemente à insatisfação, como se fosse possível escapar-lhe pela resistência! Várias vezes pelo mundo a fora ouvi a tal frase: "Jesus é do tamanho do buraco em seu peito". Jesus, o crack, o jogo, a internet... Cada um tem o buraco que suporta e a tampa que consegue armar. Já eu, sempre gostei dos buracos... Quanto mais fundo, mais meu coração dispara. Essa descarga de adrenalina encontrou sua explicação quando lendo "O mito de Sísifo" vi Camus pontuar a angústia frente ao abismo e a possibilidade do arremessar-se. Lembro-me de casos de crianças que caíram em buracos, foram tragadas por bocas de lobo... Imagens da infância que me despertam ainda alguma sensação aguda. Talvez, por isto, minhas tampas sempre acabam no fim sendo recicladas.
Às vezes chego a pensar que o verdadeiro perigo da vida é a própria segurança e tudo que há nela de falso, de raso, de costumeiro. O caos não garante segurança. Pensando friamente a qualquer momento, sem aviso prévio, poderíamos compartilhar do destino dos dinossauros. Não posso ignorar este fato, e tantos outros, como a maioria ignora. Olho para o céu à noite e sinto um arrepio na espinha. No fundo, não desejo ignorar nossa fugacidade. A angústia realmente me fascina. Quando li "A náusea" do Sartre demorei um tempo para sedimentar o incômodo que senti. Sartre parecia ter estragado a beleza poética da angústia tentando resistir a ela, enfrentá-la. Então "O estrangeiro" do Camus me provocou outro estranhamento diante da indiferença de Mersault, sua anestesia frente ao absurdo, mas serviu para me mostrar a multiplicidade das vias pelas quais o ser humano se resolve com seus buracos. Entretanto foi com "A peste", também de Camus, que mais me identifiquei.
O rebuliço inconsciente da multidão, o horror e o desamparo, o caos... Encontrei minha resposta pessoal na Peste. Só não contei com o passar do tempo e sua capacidade de cauterização das emoções. Acomodei-me na adultice e amorteci minha insatisfação experimentando as novidades calmas desta fase da vida, virei esposa, dona de casa, mãe, mudei de profissão, mudei de endereço, criei rotinas, fui me adaptando a uma vida sobre a qual eu nunca tinha antes verdadeiramente refletido. As filhas da tal geração Y não foram criadas para pensar na definição do papel feminino dentro do casamento à moda antiga travestido de "moderno". Fui me moldando às novas condições que esta vida me impunha. Hoje percebo que certas construções são mais sólidas e duráveis que outras. Com a idade também desvendamos algumas certezas que já não carecem de revisão constante. Mas não é possível parar de experimentar, de vivenciar, sem morrer. É inevitável continuar crescendo e revendo certezas à medida que se adquire novas experiências. Quando a juventude cede, chegamos à fase das reformas, da remodelagem.
Sempre me admiro com estas mudanças de perspectiva. Nas crises há uma oportunidade única de reavaliar-se, re-inventar-se, reaprender as dimensões agora expandidas do eu. Cada nova fase do desenvolvimento humano, quando bem estruturada, traz em si o amadurecimento das habilidades e aptidões adquiridas nas fases anteriores. Superar uma crise existencial é superar a si mesmo, experimentar o renascimento da fênix, tornar-se algo diferente do que se foi, é encontrar também na fruta a árvore que a raiz sustenta. Uma crise bem vivida vale por anos de terapia. E como toda experiência é válida quando se trata do bom e velho conheça-te a ti mesmo, que venham as crises, pois se tem uma coisa da qual eu não me canso, é de descobrir-me.

Comentários