Por que os adultos têm medo de expor suas crianças à tecnologia?
Estamos diante da primeira geração de pais que cresceram jogando video games. E eles jogam até hoje. Hoje meu marido disse à minha filha de 4 anos que estava tendo problemas jogando Rayman: "Eu nunca pedi ao meu pai ajuda para matar um chefão, eu tinha que fazer isto sozinho!" E os jogos não eram mais fáceis naquela época. Nós fomos a primeira geração a aprender com video games e computadores. (Já escrevi aqui sobre isto.) E agora, nós estamos tendo filhos e eles estão crescendo com eletrônicos por toda parte. Exceto na escola. Lá eles encontram papéis, tintas, lápis, borrachas... Curiosidades, coisas engraçadas, só isso. O problema é que isso dura 12 anos no mínimo! E o que você aprende lá sobre a vida prática? Não o bastante, com certeza.
Minha filha de 4 anos reconhece todas as letras do alfabeto e várias marcas desde os 2 anos de idade. Alguns meses atrás ela teve um "clique" sobre como combinar as letras em sílabas e palavras enquanto jogava um jogo da memória que misturava palavras e desenhos. Nós estávamos trabalhando com ela há meses, fixando as combinações possíveis de letras e seus sons quando se juntam, mas isso não vinha naturalmente até aquele clique. Ela viu "barco" e simplesmente leu "ba...r...co". Então ela percebeu o que fez e tentou de novo. "Ca... s... to...r. Castor!" E agora ela lê de tudo. Nenhuma escola envolvida, só seus pais, dois Ipads disponíveis, computador, video games, livros, televisão e outros apetrechos.
Nós temos muitos jogos nos Ipads para as crianças. O mais novo tem 2 anos e está indo pelo mesmo caminho da irmã. Ele já reconhece muitos símbolos, nos referimos a eles por seus nomes, como "aperte o botão cancel", "onde está o youtube", "vá ao histórico para achar seu filme". Ele consegue lembrar-se do caminho para um desenho 2 ou 3 desenhos depois do que ele viu primeiro nas referências do youtube. Ele sabe que não gostamos de certos tipos de filmes e já identifica alguns sozinho, mudando de vídeo ou, às vezes, abaixando o volume... (glup) A mais velha já se guia pelos "likes" quando encontra novos vídeos, para evitar os vídeos "feios". Nós também lhes ensinamos a reconhecer dublagens falsas e evitar vídeos com palavrões ou muita gritaria. Além do youtube temos jogos de colorir, escrever, vestir, cozinhar, correr, atirar, de estratégia, tudo o que encontramos eles jogam. Se eles gostam do jogo, guardamos ou até compramos a coleção inteira da companhia, quando cansam daqueles, procuramos novos.
Às vezes eles ficam muito interessados em jogos muito difíceis que os deixam bravos ou frustrados. Damos a eles opções: continuar jogando por conta própria, o que vai levá-los a morrer e repetir a fase várias vezes até conseguir passar; ou dar um tempo e tentar de novo mais tarde, com a cabeça fresca. Normalmente eles continuam tentando, mas param de reclamar para que não os façamos ir brincar com outra coisa. Não há jogos proibidos, apenas jogos que precisam de mais ou menos acompanhamento. O mais novo adora brincar de caçar zumbis no quintal. Ele gosta de ver o pai jogando rail shooters com temas de zumbis ou assistir a traillers de jogos como o zombie u no youtube. No começo ele teve medo, mas nós o ensinamos como "matar" os zumbis e agora ele sai para caçá-los todo dia. Ele usa travesseiros para fazer barricadas e esconde-se pelos cantos para caçá-los usando um pincel ou os dedos como arma. Às vezes ele é mordido e vira o zumbi que nos persegue para comer nossas barrigas.
A principal diferença entre nossos filhos e nós é que nossos pais mal sabiam o sentido da expressão "estou lutando com o chefão, mãe!". Eles não estavam lá para nos ajudar. Nós podemos prover os instrumentos para nossos filhos, podemos dar sentido ao que eles experimentam, podemos nomear suas ansiedades e medos e ajudá-los a superá-los. Ambos os meus filhos estão aprendendo inglês por causa dos jogos. Não os pressionamos, eles fazem porque querem. Nós falamos inglês fluentemente, assistimos muitos filmes em inglês e eles estão crescendo em um ambiente bilíngue Além disso, não facilitamos nem dificultamos nada, deixamos fluir naturalmente. Nós conversamos e eles vão apreendendo o sentido à medida em que ficam prontos para isso. Mas o mais importante é que não economizamos nas explicações. Explicamos muito. Cada coisinha. Por que ou como são as perguntas mais frequentes que eles fazem. E se não sabemos, pesquisamos na internet e descobrimos.
Foi assim que acabamos com dois filhos engajados no processo de alfabetização antes dos dois anos de idade, que não têm medo de zumbis e sabem selecionar boas coisas no youtube para assistir. E eu escrevi tudo isso para dizer: não tenha medo da tecnologia, aprenda com ela! Seus filhos podem tornar-se muito mais espertos se você lhes der os instrumentos certos e eles estão todos aí fora para serem descobertos e bem utilizados. Nossos filhos não estão na escola e ambos estão aprendendo naturalmente como ler, interpretar e julgar criticamente as informações ao seu redor.
Não podemos esconder nossos filhos do mundo, mas podemos ensina-los a viver em segurança, se soubermos como, claro. Não pense que seu filho é muito jovem para isso ou aquilo. Observe com atenção e você saberá o quanto ele suporta. Ouça-o, dê-lhe os instrumentos e aprenda com ele. Nós podemos construir um mundo bem melhor se mudarmos do medo para a curiosidade e a experiência. Deixe as crianças serem curiosas e junte-se a elas em sua viagem pelo mundo do conhecimento. Todos temos muito a aprender com isso. E acredite, nós precisamos aprender logo como criar nossas crianças de uma maneira nova, ou eles se criarão sozinhos, como nós tivemos que fazer. Não que seja um grande problema, estamos todos vivos, mas é mais divertido junto. Cresçam com seus filhos, vocês não vão se arrepender!
Clique aqui para ler algumas de minhas perguntas à educação e o sistema de ensino.
