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Arte fato IV - ou, a arte perdida






Série Arte Fato:


Assim de supetão lembro-me de dois momentos históricos nos quais o movimento artístico dedicou-se ao mundo das drogadicções. São eles a segunda fase do romantismo e os anos rebeldes da década de 60. Não quero entrar em detalhes sobre estes movimentos e seus representantes, basta dizer que para nosso objetivo avaliaremos disposições culturais que levaram os artistas a adentrarem o mundo do entorpecimento de forma sem volta. Diferente dos demais movimentos onde especialmente o álcool e o tabaco eram amplamente usados, mas ainda havia moderação, estes dois movimentos deixaram para trás muitos de seus representantes prematuramente mortos. Se eu afirmo que a arte garante uma distanciação do abuso de drogas, o que teria acontecido nestes momentos para gerar exatamente o movimento oposto, de fusão com a droga?

Quando estudo os três momentos do romantismo, não posso evitar compara-los aos desenvolvimento humano, identificando infância, adolescência e maturidade na evolução romântica. O idealismo bucólico, do amor maternal, da pureza e da inocência foi aos poucos sendo substituído por uma tendência ao escuro, ao profano, ao amor carnal enlouquecedor e à morte. A segunda fase foi uma fase de excessos cujo estopim foi muito provavelmente o excesso de idealismo puritano da primeira fase. No Brasil, assim como no mundo, o séc. XIX foi marcado por grandes mudanças nos cenários político, social e científico. Essas mudanças se refletiram nos valores morais, na identidade de gênero, no comportamento e no próprio sentimento de nação dos povos. Essa necessidade de novas referências fez o ser humano do séc. XIX repensar seu lugar no mundo e quando isto acontece, historicamente, nada mais volta a ser como antes. O romantismo, assim como o movimento hippie, marca um período de grande insegurança e falta de referências na sociedade.

Para fazer frente à falta de referências as populações se organizaram. Primeiro houve uma tentativa de estabelecer uma realidade completamente diferente da anterior, mas a imaturidade do pensamento humano, ainda sem instrumentação adequada para produzir conhecimentos sistemáticos bem fundamentados, fez essa primeira reação descambar em utopia pura e simples. A solução que a primeira fase propunha era fantástica, no sentido de fantasiosa. Não havia engajamento político, apenas amor e natureza, uma utopia que não era aplicável nem aos índios dos quais ela tentava se valer como exemplo aqui no Brasil. E sem conseguir responder à demanda de um novo modelo, ela acabou dando lugar ao seu oposto igualmente apolítico. O desconforto social era tão grande e a utopia de um mundo melhor era tão irreal que os representantes da primeira fase foram substituídos pela falta de limites, pelo excesso desregrado. A segunda fase faz nascer artistas extremamente sensíveis e ao mesmo tempo frágeis.

O colonialismo estava em crise. As colônias já independentes queriam agora estabelecer uma identidade que fosse só delas, queriam afastar-se de seus exploradores. Já os europeus precisavam se reestruturar com o fim das colônias. Sua economia estava em risco, seus Estados enfraqueciam-se, sua população empobrecia e as antigas respostas perdiam seu sentido. Também no Renascimento aconteceu algo parecido e as mulheres, que até então não tinham outra opção senão casar ou tornar-se freira, começaram a optar pela prostituição como forma de libertar-se do jugo matrimonial católico. Uma forma de inclusão perversa bem aos moldes do que hoje é o tráfico de drogas. O ponto é que sempre que a organização social sofre um forte abalo os valores vigentes ficam fragilizados e surge a oportunidade para que os insatisfeitos tentem mudar o rumo dos eventos para algo diferente do que existia antes. Da segunda fase do romantismo aos nacionalismos da segunda grande guerra passaram-se 100 anos e é lá, nos primórdios do romantismo, que vamos encontrar o germen do que no futuro viria a tornar-se um problema mundial.

Desviando um pouco da análise do contexto histórico, vemos então uma série de artistas que nasceram em um momento histórico faltoso de referências se afundando no álcool, no tabaco e nas noitadas. Apesar de não haver ainda o problema da overdose, podemos dizer que este elemento surgia encarnado na tuberculose que afligiu a maioria deles e os levou a uma morte precoce. A produção artística da época revela o não reconhecimento dos limites, quer sociais, quer físicos. A filosofia do Carpe Diem surge para dar bordas ao fenômeno social que acontecia. Da mesma forma que a filosofia do sexo, drogas e rock n' roll surgiu na década de 60 como resposta à falta de referências desencadeada pela utopia do estilo de via americano durante a guerra fria.

Se por um lado o Carpe Diem foi uma postura filosófica criada pela quebra do modelo vigente, o Sexo, Drogas e Rock n' Roll respondia a uma quebra seguida de uma imposição violenta e reacionária de um modelo dicotômico que não respondia nada, mas pretendia tudo. No lado ocidental do planeta vimos o american way of life sendo imposto pela violência e a perseguição dos que não se enquadravam. Vimos as crianças nascidas na segunda guerra sendo massacradas pelo medo de seus pais e pela eterna suspeita do comunista canibal em pele de americano. Os jovens que cresceram neste contexto dos anos rebeldes, os filhos dos jovens dos anos dourados, queriam o mesmo que os protagonistas do mal do século: queriam liberdade. A quebra do pacto social pela exarcebação utópica da satisfação pessoal, tem consequência direta sobre a estabilidade psíquica dos indivíduos que ele rege. O que se verifica como constante em ambos os casos é que a geração que assistiu à derrocada de valores utópicos de seus pais torna-se tão fragilizada que um recurso comum é lançar-se à utopia do entorpecimento.

As exigências feitas aos jovens de ambas as gerações não tinham ressonância na realidade. O amor romântico de Marília de Dirceu, com o passar dos anos, enfrentou as dificuldades da convivência cotidiana, as brigas de casal, os mal-entendidos, a TPM e a menopausa de Marília, a crise dos 50 de Dirceu e seus filhos, que a tudo assistiam, viam seus pais sofrerem perdidos em expectativas surreais. Enquanto isso o american way, bem demonstrado na série "A feiticeira", com sua esposa castrada, focada na felicidade do marido, às voltas com as exigências sociais absurdas encarnadas na vizinha fofoqueira, castrando a contra-gosto a própria filha que cresce vendo a mãe enganar o marido com pequenos truques para, nas costas dele, ter um pouco de felicidade. Conclusão: se o pacto social não tem raízes na realidade, se suas respostas impostas não se dirigem às demandas básicas da sociedade, se as expectativas elevam-se em demasia e sobre temas cuja aplicação não é prática ou cujos frutos não são benéficos as consequências de sua derroca não são nada agradáveis, embora as produções artísticas sejam bem interessantes.

A arte sempre andou de mãos dadas com a história e o que vemos em ambos os casos é a desestruturação sistemática da organização vigente. Os jovens do mal do século e dos anos rebeldes, em última instância, preferiram abraçar a morte ao sistema. Não conseguindo corresponder às expectativas familiares e sociais, tendo visto a mentira organizar o seio familiar e suplantar os belos ideais de seus pais, esses jovens dedicaram-se a morrer. A arte é o ambiente primeiro da revolução e antes de morrer estes jovens deixaram com sua arte belas cartas de adeus. Seu legado serviu de exemplo, sua vida desregrada serviu de contrapondo às regras utópicas de seus pais e permitiu o retorno à realidade para os que sobreviveram.

Considerando então as possibilidades de organização psíquica do ser humano, levando também em conta tudo o que já desenvolvi sobre a relação narcísica do artista com o olhar do outro, tentemos analisar o que aconteceu com estes artistas em particular. Seguindo a lógica do mito de narciso, o que pode-se concluir é que nestes casos o olhar do outro não conseguiu servir de suporte e o artista sucumbiu e afogou-se no lago representado pela drogadicção. Sua arte, sem obter no outro o resultado esperado, voltou-se contra o eu do artista mergulhando-o em crises de auto-destruição e desejo de morte. De certa forma o olhar do outro estava cego, só via seu próprio ideal, o que via não estava lá e isto, para o artista é insuportável.

Com tudo isto em mente darei sequência à análise da arte do século XXI no próximo post da série. Fiquem ligados!


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