Ao estudar o existencialismo, e depois a fenomenologia, pude me realizar de que as saídas para o sofrimento são inúmeras e muito pessoais. Não basta voltar ao passado para repensar a história, resignificá-la ainda pensando-a como uma espécie de destino do qual não se poderia fugir. O que o existencialismo me ensinou foi a transformar o que fizeram de mim no que eu fiz do que fizeram de mim. É na implicação do eu na própria existência que deposito o mérito do existencialismo. A análise existencial então visa a posse da existência pelo sujeito dela mesma. Acho belíssima a passagem de Nietzsche sobre o passado e a vontade:
Essa passagem traduz muito do que aprendi. Para mim, a finalidade de uma “terapia” é erradicar a alienação que mantemos com nosso corpo e nossa existência mesmo que isso implique nos abrirmos à angústia. Sermos donos de nossa vontade, querermos tornar-nos aquilo que somos; a isso me parece visar o trabalho clínico.
Vivemos em um mundo que nos tira o direito sobre nossa própria história, nos afasta de nossas próprias ações. Não é raro ouvir alguém dizer que não queria ter feito o que fez, ou que não consegue deixar de fazer determinada coisa. Se pensarmos nessa alienação da vontade como uma compulsão ditada pelo inconsciente, de fato não há nada que possamos fazer sozinhos. Mas se, por outro lado, pensarmos nisso como uma condição irrefletida, poderemos nos movimentar no sentido de questioná-la e modificá-la. Novamente cito Nietzsche para expressar o processo de libertação da vontade:
É claro que não pressuponho que uma vez sabendo que a vontade é a salvação por si só, basta fazer o contrário do que se fazia antes para estar livre, pois ainda aí há alienação. É necessário um trabalho árduo para nos despirmos de tudo o que nos foi imposto, pois tendemos a acreditar (ou fomos criados para acreditar) que a vontade do outro é a nossa própria. Ora, se estamos condenados a sermos livres, penso que o trabalho clínico vem a ser aquele que se propõe a nos ajudar a chegar a esta certeza e a fazer dela a possibilidade para a liberdade de fato.
“Como poeta, como adivinho de enigmas, como redentor do azar, ensinei-os a serem criadores do futuro e a salvar criando tudo o que foi. Salvar o passado no homem é transformar todo 'foi assim' até a vontade de dizer: 'Assim eu quis! Assim o hei de querer!' Eis o que chamei a sua salvação; só a isso lhes ensinei a chamar salvação”.
Essa passagem traduz muito do que aprendi. Para mim, a finalidade de uma “terapia” é erradicar a alienação que mantemos com nosso corpo e nossa existência mesmo que isso implique nos abrirmos à angústia. Sermos donos de nossa vontade, querermos tornar-nos aquilo que somos; a isso me parece visar o trabalho clínico.
Vivemos em um mundo que nos tira o direito sobre nossa própria história, nos afasta de nossas próprias ações. Não é raro ouvir alguém dizer que não queria ter feito o que fez, ou que não consegue deixar de fazer determinada coisa. Se pensarmos nessa alienação da vontade como uma compulsão ditada pelo inconsciente, de fato não há nada que possamos fazer sozinhos. Mas se, por outro lado, pensarmos nisso como uma condição irrefletida, poderemos nos movimentar no sentido de questioná-la e modificá-la. Novamente cito Nietzsche para expressar o processo de libertação da vontade:
“Vontade! — assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria: — eis o que vos ensino, meus amigos; mas aprendei também isto: a própria vontade é ainda escrava”.
É claro que não pressuponho que uma vez sabendo que a vontade é a salvação por si só, basta fazer o contrário do que se fazia antes para estar livre, pois ainda aí há alienação. É necessário um trabalho árduo para nos despirmos de tudo o que nos foi imposto, pois tendemos a acreditar (ou fomos criados para acreditar) que a vontade do outro é a nossa própria. Ora, se estamos condenados a sermos livres, penso que o trabalho clínico vem a ser aquele que se propõe a nos ajudar a chegar a esta certeza e a fazer dela a possibilidade para a liberdade de fato.
Em geral, queremos a liberdade, mas não a responsabilidade que a acompanha. É diante da responsabilidade que a escolha acarreta, que o homem deseja avidamente tornar-se o que Nietzsche chamou de um “crente”, deseja alguém que mande nele e determine para ele seu percurso, que tome sobre si a responsabilidade pelos seus atos. Sabemos que não funciona assim na prática mas insistimos em delegar ao outro nossas decisões. O trabalho clínico vem clarear esses pontos e tornar a pessoa sujeito de sua práxis, de sua existência.
“De acordo com isso podemos entender porque a nossa doutrina causa horror a um certo número de pessoas. Porque muitas vezes não têm uma única maneira de suportar sua miséria, isto é, pensar 'as circunstâncias foram contra mim, eu valia muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive um grande amor, ou uma grande amizade, mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher que fossem dignos disso, (...). Permaneceram, portanto, em mim e inteiramente viáveis, inúmeras disposições, inclinações, possibilidades que me dão um valor que da simples série de meus atos não se pode deduzir'. Ora, na realidade, para o existencialista não há amor diferente daquele que se constrói; não há possibilidade de amor senão a que se manifesta no amor, não há gênio senão o que se exprime nas obras de arte; (...). Um homem embrenha-se na sua vida, desenha o seu retrato, e para lá desse retrato não há nada”.
1 NIETZSCHE, F. Assim falava Zaratustra. Parte III, das velhas e das novas tábuas.
2 NIETZSCHE, F. Ibid. Parte II, da redenção.
3 SARTRE, J. P. O existencialismo é um humanismo.
