Dialética, na antiguidade grega, indicava a arte de se descobrir uma verdade através do diálogo, onde duas opiniões contrarias se antagonizam e desse confronto brota um conhecimento verdadeiro. Nenhum aspecto da realidade pode ser considerado isoladamente: cada fenômeno encontra-se relacionado aos outros em um movimento comum. Claro, podemos isolar um fato, mas com isso o estamos privando de sentido. As partes da realidade são pedaços de um todo e estão interligadas: há um agrupamento de coisas em que o sentido de cada parte só aparece por inteiro quando ela é vista em relação às outras partes e ao todo.
Essa premissa conduz a outra: “Tudo é contraditório”. A contradição dos termos encerra, pois, uma unidade: cada um dos contrários contém ele mesmo o outro como uma negação. Toda determinação é a negação de seu contrário. A contradição constitui então a origem, a raiz de todo movimento, mostra-se como a força propulsora de toda evolução e mudança.O movimento das coisas faz-se por contradições que lutam entre si e se desenvolvem por esse conflito de opostos.
Tal processo verifica-se do seguinte modo: um fenômeno ou afirmação (tese) suscita seu oposto ou negação (antítese); o confronto desses contrários resulta na síntese. Ou seja, as duas realidades anteriores formam uma terceira que as supera. Ocorre a negação da negação: a tese é negada pela antítese, e ambas são negadas pela síntese que as absorve. Nessa superação, o que é superado não desaparece de todo, mas se conserva em parte; já agora em nível superior e o novo estado que surge abriga elementos do estado antigo. Por sua vez, a primeira síntese será a tese de um novo ciclo dialético a iniciar-se. Ocorre como que uma volta ao ponto de partida, mas em nível mais elevado.
A dialética da Natureza (Materialismo dialético) é um sistema filosófico elaborado por Friedrich Engels (1820-1895). Nesse sistema filosófico a dialética aplica-se a natureza pura, à parte de qualquer presença ou intervenção humana. Para Darwin a matéria inorgânica se desenvolveria dialeticamente, em contradições internas, segundo movimentos auto-produzidos, em um processo análogo aquele do qual Hegel fizera a lei do pensamento e Marx a lei da História.
O mundo material teria assim um
auto-desenvolvimento dialético: a realidade velha, por suas contradições
internas, cria nela mesma condições para sua destruição, fazendo nascer
uma realidade nova, sua negação, que conserva aspectos da realidade
anterior, mas elevando-os a um grau mais alto. Em outros termos: cada
fase nega a que caducou, e seus componentes dão aos antigos uma nova estrutura mais complexa.
O desenvolvimento não cessa aí: o novo, por sua vez, amadurece, e nele
volta a se manifestar a negação. Portanto, verifica-se uma sequência de
negações ao infinito, em um desdobrar progressivo e ascendente: passa-se
do velho ao novo, do inferior ao superior. O que
desenvolve os organismos é uma
luta interna entre caracteres hereditários e sua negação, ou seja, sua
mutabilidade para adaptar-se às alterações do meio ambiente.
Jean Paul Sartre questiona a Dialética da Natureza, ou seja, esse movimento dialético do mundo material. Para ele o mundo do Em-si desconhece o que seja negação, relação, progresso, etc. Não se pode compreender a dialética se deixarmos de lado conceitos como temporalidade, projeto, totalização-em-curso, negatividade, etc., que só existem na esfera do Para-si. Ele afirma que “somente a História humana é dialética”, e conclui que “é a inteligibilidade mesma da dialética que desaparece quando se pretende transportá-la para a natureza”.
Aliás, sequer se pode falar mesmo em
“contradiçao dialética” ou em “negação de negação”, segundo Sartre. Na matéria positiva
ou inorgânica não há temporalidade nem possibilidade de negações,
exigidas pela contradição dialética. Um estado A só pode ser negação do
estado B se, de algum modo, puder contê-lo em si mesmo como “não sendo
A”. E uma síntese C só pode resultar em nova síntese D se, de alguma
forma, esta síntese D puder reter temporalmente a síntese C enquanto
“algo que passou” e puder compará-la com o novo estado emergente e,
assim, negar C como existente (“a síntese C não existe mais”).”
Sartre acredita que a razão dialética, ou seja, o modo de raciocinarmos dialeticamente é a única maneira correta de se compreender a realidade humana (como intencionalidade, projeto, totalização-em-curso) e também a única forma de se fazer inteligível o processo histórico. “Sem a razão dialética – escreve – afirmo que nada, absolutamente nada, nem a leste, nem a oeste, se escreve ou se diz a respeito de nós e nossos semelhantes que não seja um erro grosseiro".
A falha principal das ciências humanas (incluindo o próprio marxismo, que se pretende científico) é estudar o seu objeto, o homem, do mesmo modo como as ciências naturais (matemática, astronomia, física, geologia, zoologia, botânica, etc.) tratam os objetos de seu campo de análise submetendo-os às leis da inércia e do determinismo, próprias do mundo exterior. Ou seja, todos partem do que Sartre chama de “razão analítica”.
Em "O Ser e o Nada" vemos Sartre delinear a impossibilidade de apreensão do objeto em-si. Para perceber é necessário uma consciência, um eu que percebe, de forma que a própria existência deste "filtro" já implique uma alteração inexorável do objeto percebido. Entramos então no campo da fenomenologia e tudo se complica ainda mais nas relações humanas, quando acrescentamos duas vias à percepção do objeto. O objeto percebido pelo eu é, por sua vez, também percebedor, alterador e eu. Ao perceber o objeto, no caso o outro, como eu, o eu torna-se por sua vez objeto do outro e de si mesmo percebendo-se coisificado pelo olhar do outro.
Esse efeito espelho entre eu e outro ascende ad infinitum e é possível, a cada passo complexificar as relações que se desdobram na tentativa de apreensão do eu no mundo. A história humana escreve-se então a partir de tais interações que se modificam mutuamente ao afirmar-se e negar-se, identificando-se e excluindo-se, sempre absorvendo um pouco mais do outro para constituir o eu no mundo. É impossível sair de si para observar o objeto, por tanto é essencial a observação cuidadosa e identificação dos componentes do eu que integram a observação do outro. Por mais empírica e imparcial que possa parecer, jamais uma observação poderá fugir da subjetividade do observador. Rompemos com a dialética e estamos agora no campo da fenomenologia que a supera e acrescenta um novo elemento à primeira: o sujeito que observa.
Esse efeito espelho entre eu e outro ascende ad infinitum e é possível, a cada passo complexificar as relações que se desdobram na tentativa de apreensão do eu no mundo. A história humana escreve-se então a partir de tais interações que se modificam mutuamente ao afirmar-se e negar-se, identificando-se e excluindo-se, sempre absorvendo um pouco mais do outro para constituir o eu no mundo. É impossível sair de si para observar o objeto, por tanto é essencial a observação cuidadosa e identificação dos componentes do eu que integram a observação do outro. Por mais empírica e imparcial que possa parecer, jamais uma observação poderá fugir da subjetividade do observador. Rompemos com a dialética e estamos agora no campo da fenomenologia que a supera e acrescenta um novo elemento à primeira: o sujeito que observa.

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