Questionar os acontecimentos da vida é uma atitude da qual a maioria das pessoas foge como se o fizesse do próprio Diabo. Deveras se faz necessário fugir de tamanha tormenta: a vida é muito mais tranqüila e segura sem tantas perguntas sem resposta, afinal, é para quem pergunta demais que criaram o inferno. E o ato de questionar pode tornar-se rapidamente um hábito – ou vício –, passando-se de uma pergunta a outra, antes mesmo da primeira ter sido respondida. Mas tantas coisas podem acontecer simultaneamente na psique de um sujeito que é difícil imaginar o que leva as pessoas a se contentarem com explicações lineares repletas de verdades absolutas sobre todos os fenômenos. Qualquer um pode constatar a falsidade de tais explicações com a simples observação de si mesmo como dizia Nietzsche:
"Quantos homens sabem observar? E entre os poucos que o sabem – quantos observam a si próprios? Cada um é para si próprio o mais distante..." (Assim falou Zaratustra in Obras Incompletas. p. 190)
Somos um aglomerado de possibilidades, um vir-a-ser em constante transformação. Mais ainda, tais mudanças ocorrem simultaneamente em diversas dimensões da existência; a existência é um intrincado de inter-relações subjetivas que tendem ao equilíbrio, no entanto, o mais ínfimo estímulo pode despertar alterações que passarão de uma dimensão a outra do ser rapidamente se não estivermos munidos de “mecanismos de defesa” capazes de barrar este “ataque” ao equilíbrio da psique. Para isso nos servimos da
sociedade e da realidade que ela nos oferece.
“O homem no mundo vive de possibilidade, já que a possibilidade é a dimensão do futuro e o homem vive continuamente propendido para o futuro. Mas as possibilidades que se apresentam ao homem não têm nenhuma garantia de realização. Só por uma piedosa ilusão elas se lhes apresentam como possibilidades agradáveis, felizes ou vitoriosas: na realidade, como possibilidades humanas, elas não oferecem nenhuma garantia e ocultam sempre a alternativa imanente do sucesso, do fracasso e da morte.” (Dicionário de filosofia, p. 56)
"Quantos homens sabem observar? E entre os poucos que o sabem – quantos observam a si próprios? Cada um é para si próprio o mais distante..." (Assim falou Zaratustra in Obras Incompletas. p. 190)
Somos um aglomerado de possibilidades, um vir-a-ser em constante transformação. Mais ainda, tais mudanças ocorrem simultaneamente em diversas dimensões da existência; a existência é um intrincado de inter-relações subjetivas que tendem ao equilíbrio, no entanto, o mais ínfimo estímulo pode despertar alterações que passarão de uma dimensão a outra do ser rapidamente se não estivermos munidos de “mecanismos de defesa” capazes de barrar este “ataque” ao equilíbrio da psique. Para isso nos servimos da
sociedade e da realidade que ela nos oferece.
“O homem no mundo vive de possibilidade, já que a possibilidade é a dimensão do futuro e o homem vive continuamente propendido para o futuro. Mas as possibilidades que se apresentam ao homem não têm nenhuma garantia de realização. Só por uma piedosa ilusão elas se lhes apresentam como possibilidades agradáveis, felizes ou vitoriosas: na realidade, como possibilidades humanas, elas não oferecem nenhuma garantia e ocultam sempre a alternativa imanente do sucesso, do fracasso e da morte.” (Dicionário de filosofia, p. 56)
A explicação teórica acerca da origem da vida em sociedade afirma que os indivíduos, para defenderem-se dos perigos do meio – e seus múltiplos estímulos –, tiveram necessidade de se agruparem. A comunicação, divisão do trabalho e proibição do incesto derivaram disto. No entanto, um fenômeno paralelo acontece neste mesmo momento histórico: a quantidade de estímulos que a psique recebia anteriormente ao grupo também era perigosa, criando a necessidade de, uma vez estabelecido o grupo, filtrar os estímulos indesejáveis e causadores de maiores problemas afastando-os com o recalque: mecanismo oriundo dos três fenômenos sociais supracitados. Os indivíduos agora podem usufruir da segurança de uma vida organizada cronologicamente que visa afastá-los do pensamento sobre sua própria temporalidade.
"O bem do universal exige o abandono do indivíduo."... mas, vede, não há um tal universal! No fundo, o homem perdeu a crença em seu valor, quando através dele não atua um todo infinitamente valioso: isto é, ele concebeu um tal todo, para poder acreditar em seu valor." (Nietzsche, Obras incompletas. p. 431)
"O bem do universal exige o abandono do indivíduo."... mas, vede, não há um tal universal! No fundo, o homem perdeu a crença em seu valor, quando através dele não atua um todo infinitamente valioso: isto é, ele concebeu um tal todo, para poder acreditar em seu valor." (Nietzsche, Obras incompletas. p. 431)
"Armamos para nós um mundo, em que podemos viver... [mas] vida não é argumento; entre as condições da vida poderia estar o erro." (ibid. p. 186)
Um professor belga já dizia que para compreender o Homem, é necessário apreender sua história. É na história que encontramos a maneira pela qual uma sociedade resolveu seus conflitos diante de um ambiente hostil como o mundo real. Essa é a chave para a Psicologia interessada no Homem: buscar a verdade por trás dos mitos de um indivíduo sócio-histórico-cultural. Mas que Homem é este que tenta apagar tanto sua história quanto sua História? O que ele não quer enxergar sobre ele mesmo? Por que dói tanto para esse
Homem conhecer-se?
"Ora, foi a moral que protegeu a vida do desespero e do salto no nada..." (Nietzsche, Obras incompletas. p. 434)
O questionar os valores é realmente doloroso, mas são exatamente eles que mais nos afastam do conhecimento-de-si. Nietzsche afirma através de Zaratustra que a falta de valor que há nos “crentes” é fruto de seu não conhecimento próprio, porque antes de encontrarem a si mesmos encontraram Zaratustra e o seguiram, portanto, deveriam perdê-lo, encontrarem a si, e só então reencontrá-lo neles mesmos, por ser seu pensamento comum aos que libertam sua vontade.
Mas o homem não deseja ter livre sua vontade. Antes, luta com todas as forças para que mandem nele, digam-lhe o que e como fazer, tornando-se irresponsável perante a própria vida. Ele não quer conhecer-se, mas ao mesmo tempo, cria fantasmas desse eu morto para atormentá-lo. E nas palavras de Drummond: “Mas que coisa é o Homem”!
“Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. (...) É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a
si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer.” (O Existencialismo é um Humanismo, p. 227 – 228)
Um professor belga já dizia que para compreender o Homem, é necessário apreender sua história. É na história que encontramos a maneira pela qual uma sociedade resolveu seus conflitos diante de um ambiente hostil como o mundo real. Essa é a chave para a Psicologia interessada no Homem: buscar a verdade por trás dos mitos de um indivíduo sócio-histórico-cultural. Mas que Homem é este que tenta apagar tanto sua história quanto sua História? O que ele não quer enxergar sobre ele mesmo? Por que dói tanto para esse
Homem conhecer-se?
"Ora, foi a moral que protegeu a vida do desespero e do salto no nada..." (Nietzsche, Obras incompletas. p. 434)
O questionar os valores é realmente doloroso, mas são exatamente eles que mais nos afastam do conhecimento-de-si. Nietzsche afirma através de Zaratustra que a falta de valor que há nos “crentes” é fruto de seu não conhecimento próprio, porque antes de encontrarem a si mesmos encontraram Zaratustra e o seguiram, portanto, deveriam perdê-lo, encontrarem a si, e só então reencontrá-lo neles mesmos, por ser seu pensamento comum aos que libertam sua vontade.
Mas o homem não deseja ter livre sua vontade. Antes, luta com todas as forças para que mandem nele, digam-lhe o que e como fazer, tornando-se irresponsável perante a própria vida. Ele não quer conhecer-se, mas ao mesmo tempo, cria fantasmas desse eu morto para atormentá-lo. E nas palavras de Drummond: “Mas que coisa é o Homem”!
“Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. (...) É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a
si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer.” (O Existencialismo é um Humanismo, p. 227 – 228)
(Continua no próximo post!)

Comentários
Acho esse um pensamento que vai na contra-mão dessa construção social. Ou seja, é contraditória em si mesma. Na medida em que os indivíduos não refletem e evitam falar sobre a morte, sobre o fim, eles ficam inconsequentes e não dão o devido valor à vida. Aquele que mantém em mente sempre que não estará por aqui para sempre, sempre tem mais facilidade de desfrutar melhor do momento. Ou melhor, nem sempre: alguém que pensa nisso mas de forma paranóica, só se lamentando o tempo todo não vive, se lamenta e sofre.
'"O bem do universal exige o abandono do indivíduo."... mas, vede, não há um tal universal! No fundo, o homem perdeu a crença em seu valor, quando através dele não atua um todo infinitamente valioso: isto é, ele concebeu um tal todo, para poder acreditar em seu valor." (Nietzsche, Obras incompletas. p. 431)'
É impressão minha ou Nietzsche quis dar uma cutucada no platonismo? rs
Eu também não acredito em universais como A Moral, A Inteligência...sabe? Aliás, não acredito neles como coisas. Eles são projeções de nossa mente, ficções úteis que surgem quase automaticamente na nossa mente.
"O questionar os valores é realmente doloroso, mas são exatamente eles que mais nos afastam do conhecimento-de-si. Nietzsche afirma através de Zaratustra que a falta de valor que há nos “crentes” é fruto de seu não conhecimento próprio, porque antes de encontrarem a si mesmos encontraram Zaratustra e o seguiram, portanto, deveriam perdê-lo, encontrarem a si, e só então reencontrá-lo neles mesmos, por ser seu pensamento comum aos que libertam sua vontade."
Esse texto acho que se relaciona com isso de certa forma: http://opicodamontanha.blogspot.com.br/2013/05/morro-porque-nao-morro.html
"por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade."
Polêmico...polêmico...rs
Acho esse um pensamento que vai na contra-mão dessa construção social."
Talvez o sentido precise melhorar. Mas não é uma contradição, é um fenômeno dialético. Ao criar uma estrutura cronológica dentro da sociedade o indivíduo delega responsabilidades, divide o todo e reduz a incerteza. Para não precisar viver na ansiedade pela comida do dia seguinte, a estrutura comunitária divide a tarefa e permite que o ferido se alimente mesmo sem poder caçar. Isso torna a iminência da morte menos imediata e é possível contar com o outro quando nos falta força. A dependência do outro coloca a finitude em um outro patamar e o próprio questionar sobre a morte torna-se tarefa específica de alguns homens especiais. Hoje podemos viver despreocupados, projetar nosso futuro daqui 10 ou 20 anos sem grandes angústias ou incertezas. Mas para que isso fosse possível precisamos organizar a experiência cronologicamente, isto é, atentando para as relações de causa e efeito que se sucedem na temporalidade. Não foi de primeira que acertamos, mas uma característica da nossa espécie é continuar sempre tentando.
Será que ficou mais compreensível assim?
Quanto ao Universal, acredito que ele queria cutucar todas as verdades absolutas, os dogmas. O problema da simbolização é que ela pareceu uma invenção tão bacana, que deixou o ser humano deslumbrado. Foram 40000 anos desde os primeiros simbolos com tinta (e mais muitos milhares de anos escrevendo na terra ou com sangue) e de lá para cá ficamos tão viciados em simbologia que inventamos superstições, mitos, adivinhações, religiões complexas, e muitas teorias, tentando desesperadamente alcançar o real. Hoje vemos a confusão mental em que nos colocamos, sem saber se a moral nos é inerente ou se provém do símbolo que criamos para transmití-la. Algo como nos perguntar se mataríamos uns aos outros desesperadamente sem um deus que nos proibisse e um inferno que nos esperasse ou não? Mas isso foi naquela época, ao matar deus, Nietzsche nos liberou para experimentar o que já tínhamos esquecido: a existência na ignorância, a produção de saber pela experiência, o fim do controle do tabu sobre a verdade.
Nossa, Bravo! (para o último parágrafo).