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O desenvolvimento do pensamento humano - da magia à ciência



Pensamento mágico e os bichos-deuses:

Os primeiros achados sobre tentativas do ser humano primitivo compreender o mundo que o cercava e seus eventos era imersa em uma tendência a explicações mágicas. No mundo antigo encontramos todo tipo de deuses e xamanismos com intuito não só de explicar, como também manipular os eventos naturais. Foram surgindo diversos rituais mágicos fundamentados em uma compreensão ainda muito rudimentar de causa e efeito.

Um exemplo: um dia um homem lá no meio da savana africana, cuja tribo vinha sendo freqüentemente atacada por um grupo de leões, capturou alguns filhotes de javali e os deixou em uma gaiola atrás de sua tenda. Mais tarde, ele notou que os filhotes haviam sumido, a gaiola estava destroçada no chão e os leões não apareceram nem naquela, nem na noite que se seguiu. Com a nossa capacidade de estabelecer padrões, não precisava acontecer o mesmo muitas vezes para percebermos que o deus leão desejava oferendas de javali para não sacrificar seus servos humanos, que agora estabeleciam uma relação de vassalagem com o leão pela co-existência na selva.

Neste período, em que os homens se organizavam em pequenas tribos nômades, nem a comida era garantida, nem o deus-bicho que se encontraria. O ser humano era um bicho assustado em uma terra de muitos deuses gigantes e noturnos. Mas seus problemas, assim como a população que este estilo de vida sustentava, eram poucos. Desde que surgiu, há uns 150 mil anos, o homo sapiens se espalhou lentamente, de acampamento em acampamento, conviveu com outros hominídeos e tiveram até intercâmbio cultural. As mudanças ambientais impuseram duras penas aos primórdios da humanidade, sofremos com a fome, as doenças, a sede, o frio, quase fomos exterminados várias vezes, mas em geral, se andasse mais para lá acabava achando comida.

Foi a domesticação de alguns animais que permitiu ao homem demorar-se mais em algumas regiões. Tempo bastante para que sua capacidade de criar padrões percebesse que plantinhas nasciam onde eles jogavam as sementes. Esta descoberta, mais do que o fogo, foi fundamental para a civilização, pois ao produzir alimento a sociedade humana, antes tão restrita pelas condições de sobrevivência mais primordiais, pôde expandir-se e fixar-se em assentamentos perenes. Entretanto, essa tecnologia tão banal hoje, demorou uns 140 mil anos para ser descoberta. E depois que aconteceu, tudo mudou.

Pensamento religioso e organização histórica da experiência:

Quando o homem descobriu a agricultura, logo se deparou também com falhas no padrão mais óbvio, isto é, rapidamente ele percebeu que nem sempre nascia todo o grão que se esperava e quando isto acontecia, gente morria. Abandonar o sistema nômade em uma época em que ainda não se tinha o hábito de transmitir culturas sem aplicação prática direta, implicava esquecer as técnicas de sobrevivência na selva, o que fez o homem tornar-se refém da agricultura. Uma safra mal sucedida podia implicar no extermínio de uma parcela importante daquela pequena sociedade. Plantar durante a seca, pescar na piracema, parir no inverno, tudo isso era ainda muito inusitado e misterioso e quando dava errado, dava errado mesmo.

Surge então a necessidade de registrar a sucessão de eventos, tentar estabelecer relações de causa e efeito a médio prazo e garantir a sobrevivência através do tempo. Os deuses deixam de ser apenas bichos e o panteão incorpora representantes do sol, da chuva, do fogo, conforme as forças naturais mais predominantes em cada região. Os primórdios do pensamento religioso surgem da tentativa do homem de organizar os eventos em uma cadeia histórica e coordenar seus esforços, separados por períodos de tempo, para que tudo aconteça em momento oportuno, garantindo o menor número de baixas.

As novas tecnologias e formas de organização que a agricultura e pecuária permitiram ampliou drasticamente a gama de eventos aos quais o homem precisava se submeter. Estes novos eventos-deidades são interpretados na mesma lógica do leão que precisa ser saciado para não devorar seus súditos. Saber agradar aos deuses sempre garantiu a sobrevivência, mas de que se alimenta a chuva? Ou o vulcão? Ou o rio?

O pensamento mágico se organizou em grandes coletâneas de relações de causa e efeito e sem escrita bem desenvolvida, para evitar que este conhecimento se perdesse era necessário transmiti-lo boca a boca e tópico por tópico. Surge uma classe específica de pessoas com boa memória cuja responsabilidade primordial é recontar a história: o sacerdote (sacerdos - sagrado + otis - representante).

O conhecimento e a história são, no fim de tudo, o verdadeiro objeto sagrado que a organização religiosa sempre cuidou em manter vivo. Rituais religiosos agora atravessam gerações como vetores de transmissão do conhecimento humano e da sobrevivência. O mundo pouco a pouco vai sendo organizado e explicado através de uma coletânea de mitos povoados de simbologias oníricas. Tempos depois a escrita aparecerá quase como desenrolar de uma necessidade instintiva de preservar o passado.

As normas de conduta e a sociedade nas urbes:

A religião garantiu tão bem a sobrevivência da comunidade e do conhecimento que a qualidade de vida melhorou e os pequenos agrupamentos puderam crescer e tornarem-se mais complexos. Novas tecnologias de agricultura, pecuária, e construção, assim como a divisão cada vez mais especializada do trabalho nas comunas permitiu o surgimento de excedentes e das primeiras formas de mercado de troca. As grandes feras foram banidas para fora dos muros da cidade ou domesticadas, as tecnologias de produção estavam bem desenvolvidas e a escrita registrava e tornava o conhecimento das técnicas acessível, quando  o mercado começando a criar trocas culturais trouxe novos elementos para a humanidade elaborar. A morte torna-se menos comum e urgente, o homem pode agora dedicar-se com mais tempo a seus mortos e começa a pensar no que acontece depois de morrer. A tendência mágica de se relacionar com o desconhecido lança o pensamento religioso agora na dinâmica do vir-a-ser, na projeção do homem para o futuro.

Com o conhecimento dando seus primeiros passos na direção do empirismo, a religião aproveita as lacunas da observação para agregar uma nova função, cuidar do futuro pós-vida e dos meios para garantir uma boa eternidade.Os rituais que antes visavam apaziguar os elementos naturais, marcar a passagem do tempo, curar, abençoar e adivinhar o futuro, ganham novos representantes seculares, como o médico, o astrônomo e o engenheiro e a religião passa a cuidar agora de purificações, ritos de passagem e principalmente regras de conduta que apaziguem os sentimentos do homem diante da perplexidade da morte e do absurdo dos desastres. As ações individuais, em uma comunidade em expansão, tornam-se importantes na somatória dos esforços conjuntos para a subsistência, assim como a aglomeração de um grande número de pessoas por muito tempo impõe a necessidade de regras de boa convivência para que a sociedade se sustente. É importante que cada um saiba qual é seu papel e como se portar para alcançar o bem comum e a salvação. O sacerdote se torna assim responsável por civilizar os humanos, ditar-lhes os passos para agradar os deuses e os reis, convencer-lhes a seguir em uma mesma direção. Um casamento natural entre a necessidade de controlar ações para garantir o bem comum e aplacar a nova inquietação que surgia no homem ao pensar-se no mundo submetido a duros trabalhos e abandonado antes os eventos naturais.

Sempre que uma explicação empírica se sobrepõe a uma explicação mágica as divindades recuam um pouco seu raio de ação. Pensar que existe um deus do trovão hoje parece ridículo, pois sabemos exatamente quais processos e interações são necessários para que ele ocorra até em pequena escala dentro do laboratório. Para sobreviver a religião migra para as áreas ainda obscuras ao conhecimento humano e as lacunas do conhecimento humano eram tão grandes que por milhares de anos os deuses e a observação empírica co-existiram com bastante folga sobrepondo-se um ao outro sem maiores problemas. Foi à medida em que o comércio se fortalecia que as comunidades humanas começaram a viver um novo problema: a diversidade cultural. Diferenças nos valores, nas roupas, na língua, nos costumes, nos deuses, no conhecimento... O comércio forçou o encontro de culturas diferentes e quando isto acontece é impossível impedir que surjam pensadores para questionar e analisar os frutos deste encontro.

A filosofia e a Idade Clássica:

À medida que as cidades cresciam e o transito entre elas aumentava, problemas de engenharia, administração e saúde pública também iam aumentando. O ser humano cada vez mais precisava de soluções empíricas para problemas bem reais e urgentes. Foi no ápice do comércio entre os continentes da europa, ásia e áfrica que profissões importantes se desenvolveram e a cultura clássica tomou forma. A engenharia precisava de soluções cada vez mais complexas, a agricultura e a maioria dos setores de produção e transporte urgiam por novas tecnologias. Na Grécia, um local privilegiado de todo este trânsito de culturas, surgem então pensadores empenhados em compreender o mundo a qualquer custo. Matemática, astronomia, medicina, o conhecimento começou a fervilhar. Vimos surgir grandes e poderosos impérios e incríveis avanços na humanidade. O ser humano ascende a uma nova forma de organização do conhecimento: o pensamento filosófico. O sistema de conhecimento transfere-se para as mãos dos filósofos, pensadores, matemáticos e artistas. Tudo ia de vento em popa quando Roma, em uma sucessão de decisões gananciosas de seus governantes, decide ir longe demais, não se sustenta e desmantela diante de inúmeras invasões de povos bárbaros e saqueadores oportunistas.

A Idade Média e o medo:

As invasões bárbaras trouxeram o terror e a insegurança para as complexas estruturas sociais que o império romano havia desenvolvido. No final do império romano Constantino unificou a religião romana sob a bandeira da cristandade e mudou a forma como colonizava e mantinha seus territórios de fronteira. Dada sua extensão territorial, manter a unidade pelo poderio militar se tornava dispendioso demais e Roma optou por uma nova tecnologia: a dominação ideológica. Padres eram soldados muito mais baratos e carismáticos e rapidamente descobriu-se sua importante função para criar uma rede de informação que mantivesse Roma informada quase em tempo real sobre qualquer pensamento focal de rebelião. Mas quando bárbaros atacam de todos os lados e Roma sucumbe militarmente, seus súditos ficam desprotegidos, a estrutura social e a sobrevivência das comunidades unificadas pelo cristianismo são colocadas em risco. Tudo o que sobra de Roma depois de 500 anos de invasões sucessivas é sua rede de comunicação com seus padres, cidades fortificadas espalhadas por diversos pontos da europa e alguns nobres com grande influência sobre as fortificações e seus protegidos.

Todo o conhecimento que sobreviveu à barbárie estava agora escondido em profundos porões dos templos religiosos. O clero, seguindo o seu papel de sempre, guardou tudo que pôde para que não se perdesse. Mas para sustentar-se num mundo onde a besta fera é o próprio homem bárbaro a religião precisava unificar os povos civilizados novamente. Sob a proteção do povo Franco a Igreja consegue sobreviver às invasões e Carlos Magno até o ano 800 consegue estender o domínio cristão por quase toda a europa. A morte de seu filho Luís, o Piedoso marca o início da divisão do território franco e pela ideologia do poder divino do clero os nobres ascenderam à condição de reis pela mão de Deus e territórios foram divididos em grandes feudos sob o cuidado de reis suseranos e vassalos conforme seu poderio militar e sua capacidade de defender a europa cristã e os interesses do clero contra uma nova investida dos povos pagãos (muçulmanos, magiares e normandos) que agora, no séc. IX, isolam a europa do comércio com o oriente e cristalizam assim, por 300 anos, o feudalismo. O Papa torna-se o grande detentor do conhecimento, enquanto os reis exercem um poder secular e administrativo descentralizado e os padres têm o aval da sociedade para esquadrinhar as almas aterrorizadas pela barbárie. Para garantir o controle em tempos de paz a manter o conhecimento, agora um perigoso rival, trancafiado, a Igreja construiu enormes templos e estabeleceu uma rede profunda de comunicação direto para dentro do seio familiar. A dominação pelo medo, que se mostrara tão efetiva quando das invasões, encontrou no demônio sua mais perfeita encarnação e trouxe consigo o período de dominação mais absoluto da Igreja.

O próprio pensamento religioso sofreu um grande retrocesso durante a idade média. Ao esconder do mundo o conhecimento e estabelecer uma rede viva de vigilância, a igreja acabou desenvolvendo uma paranóia coletiva que atingiu até ela própria. Demonizar os eventos significou retornar ao ponto do pensamento mágico, ignorar relações de causa e efeito não imediatas e descontextualizar para que agora tudo o que fuja do controle seja mal por essência. Isto permitiu um controle tão amplo das sociedades, tanto pela igreja quanto pelos reis, braços seculares de Deus, que os abusos foram inevitáveis. Sem fundamentação empírica, ou até mesmo sem qualquer tipo de método, qualquer "verdade" poderia ser provada se houvesse algum interesse poderoso para sustentá-la. Por volta de 1100 surgem os primeiros sintomas que comporiam a Santa Inquisição, uma reação violenta da Igreja Romana contra os efeitos das trocas culturais com muçulmanos e padres ortodoxos do oriente, além dos questionamentos inevitáveis dos verdadeiros representantes da fé acerca da ostentação da Igreja.


A ciência e a era das reformas:

A reforma protestante nada mais foi do que uma reação natural ao abuso de poder. Com a população das cidades e o comércio novamente crescendo as informações e o conhecimento começou de novo a circular. O Grande cisma do oriente e a derrocada do império bizantino pouco depois traz para a europa ocidental muitos padres ortodoxos foragidos. Grupos reformistas tornaram-se ótimos lugares para reunir os pensadores que mais tarde aprenderiam a mentir para a própria igreja para escapar da fogueira santa. O  continuo contato da europa com o mundo muçulmano durante as Cruzadas trouxe algum crescimento cultural à europa, mas com o fim das Cruzadas a população da europa cresceu até o limite, a exploração das terras cultiváveis e o desmatamento causaram grandes alterações climáticas espalhando a fome, a violência e a peste por um mundo cristão no auge da perseguição da santa inquisição, causando um retorno ao fanatismo religioso diante do absurdo e da morte que assolavam a terra e eram, claro, punição divina à heresia.

Os metais preciosos escoaram para o oriente e a europa empobrecida e dizimada se torna refém do mundo muçulmano que a invade com sua cultura e seus avanços no conhecimento. Paralelamente os abusos dos reis e do clero estavam cada fez mais absurdos e a miséria causava revoltas de camponeses por todos os cantos. A igreja reagia com ameaças de danação eterna e todo tipo de demonização possível, torturando e matando muitas pessoas para convertê-las e evitar seu declínio. Os pensadores da época já não se continham para denunciar o que acontecia e o longo domínio muçulmano de Portugal favoreceu seu desenvolvimento pioneiro que marcou o início das grandes navegações e a ascensão do empirismo sobre a fé. A medicina delineava-se, de uma vez por todas, para fora do xamanismo e debruçava-se sobre a anatomia e a fisiologia afim de descobrir as relações ocultas das doenças e os remédios. Newton, Galileu, Harvey, Pasteur, o empirismo e o surgimento de instrumentos que permitiam ver para além do olho humano deu uma guinada na filosofia e transformou-a no pensamento científico. Esta nova forma de organização do pensamento através de uma vontade metódica de descobrir para além do que pode ser visto transformou para sempre a humanidade e deu condições para nascer uma nova forma de estruturação social ainda mais densa e complexa, nascia a era da instrumentação e das guerras de fogo.

O pensamento científico mal acaba de surgir na humanidade. Ainda carregado de hábitos antigos ele traz consigo a constatação de que os dogmas tendem a retrair-se diante da comprovação empírica. Apesar de não ser possível "provar" a existência ou não de um deus, o ser humano sabe agora que seu conhecimento se estende até onde sua instrumentação permite. O mesmo vale para todos os setores da vida social. A revolução industrial é inevitável na corrida pelo melhor instrumento. As distâncias e a quantidade de pessoas é enorme com a descoberta do novo mundo, a produção dá um salto, a burguesia enriquece e sobrepuja a nobreza com seus valores antigos e comportamentos dispendiosos e arrogantes, surge a imprensa e o conhecimento se espalha como nunca. Os séculos XVII e XVIII marcaram o início de um movimento progressivo que transformaria a humanidade para sempre: a expulsão de deus dos processos naturais e a retração dos valores cristãos. Mas isto fica para o próximo artigo...

[Continuação: "A trajetória do pensamento científico"]

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