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É preciso ser santo sem Deus



Esta é a proposta de Albert Camus, escritor argelino amigo e aluno de Sartre, em seu livro "A peste". Fazer o bem pelo bem, a despeito de não haver nada a ganhar com isso. Sem recompensas póstumas. A ética por seu sentido último, a empatia.

Um outro livro do mesmo autor, "A queda", desenvolve no sentido pessoal o que "A peste" trata no âmbito social, respaldando a afirmação de Tarrou (personagem da Peste) de que é preciso ser santo sem deus. Já ouvi todo tipo de análise idiota sobre estes livros tão incompreendidos. Psicanalistas adoram falar bobagem sobre "a queda", mas a verdade é que Camus não podia ter escolhido um estilo literário mais, anh... Como vou dizer... Incômodo? Depois de escrever "O estrangeiro" e "A peste", Camus se deita a dialogar com o leitor. Assim, safadamente. Ele te deixa lá, naquele bar escuro de Amsterdã, capítulo após capítulo, sozinho, confuso, angustiado em meio a expressões tão densas do existir humano, apenas com seus pensamentos na mão. Tem gente que não gosta de pensar. Tem gente que até bate em quem pensa! Mas Camus não tem papas na língua e te faz pensar querendo ou não. Seus livros, todos eles, criam uma inquietude perturbadora em quem lê. Para mim é por isso que se fala tanta bobagem sobre o cara. (Deixo o conselho para os impressionáveis, não leiam os livros e/ ou autores citados abaixo, vocês nunca mais serão os mesmos!!)

Continuando, sua proposta é simples: o absurdo. Camus ama o absurdo. E como eu não resisto a uma colcha de retalhos históricos, vamos lá...

Kierkegaard, o pai do existencialismo, foi o primeiro a se propor esta questão absurda: se Deus não existisse, nada nos protegeria do desespero e do salto no nada. Diante da angústia existencial, do perceber-se só na imensidão, Kierkegaard apega-se a Deus como fonte de sentido. Segundo ele a existência pode ser analisada em níveis, o estético, o religioso e o ético, conforme o modo de engajamento do eu no mundo. Simplório e tosco, me desculpem, mas o google fala tudo isso para quem quiser saber mais e não é minha intenção me demorar demais aqui. Dostoieviski também chegou a este ponto de perguntar-se sobre a existência de Deus e resolveu-se que tudo seria permitido sem ele, logo, fiquemos com nossos crimes e castigos como estão. Mas foi o super Nietzsche-Zaratustra quem finalmente matou Deus e liberou geral. Para os homens superiores, claro. Nietzsche não gostava muito do povo e da popularização do saber não. Para ele poucos o entenderiam, como foi de fato o que ocorreu. Ele acreditava que o povo queria ser mandado, o povo não desejava a liberdade e era função da religião mantê-los ignorantes e sob controle. Heidegger, dando o passo seguinte pôs-se a elaborar o que é morrer, agora que Deus já se foi e cá ficamos nós. Simplesmente virar esterco não é assim, digamos, o sonho de todo mortal. Na verdade, Heidegger chega ao beco sem-saída da existência: a vida não quer morrer, mas é por ser vida que ela morre. A vida, como consciência-de-si, então, angustia-se ao saber-se sempre a caminhar para a morte e apoia-se em suas relações com as outras consciências-de-si, os outros, para passar por este período de tempo que levará ao nada da melhor forma que puder.

Bem, então com Deus morto, a libertinagem superada, a angústia da morte bem definida e o caminho aberto para compreender as relações humanas de forma mais multilateral, chegamos a Sartre, o filósofo das grandes guerras. Sartre nasceu um pouquinho antes da primeira guerra mundial e acredito que o que ele deve ter vivido dá grandes bases para ele sequer perder tempo em questões divinas. O existencialismo já tinha se resolvido com isso para ele, agora resta a angústia, o desespero e o desamparo, principais conceitos da filosofia sartriana. Sarte traçou bem as relações do eu no mundo e com o outro, sua filosofia preocupou-se em cuidar do ser existindo no aqui e agora, com sua bagagem histórica e suas perspectivas e projetos de futuro com outros homens na mesma situação, todos desesperados, desamparados e angustiados. O homem de Sartre viu seu país desintegrar-se em bombas, viu seus valores perderem todo o sentido, viu os nacionalismos dominar as multidões e fazer milhares de crianças matarem umas as outras por ordem de coronéis que já não lutavam mais. Sartre acabou fundando os pilares para uma ética existencialista baseada na empatia e no relativismo cultural, uma ética para os tempos de caos. Mais ou menos seguindo a premissa, verdadeira, diga-se de passagem, de que de perto todos são inocentes. Ou culpados. Isso não vem ao caso. Mas Sartre ainda não bailava com o absurdo. Na verdade, a angústia dava-lhe náuseas. Então chegou Camus, seu aluno, para dar o próximo passo.

Camus nunca foi filósofo no sentido catedrático do termo. Mas escreveu belos livros. Em sua primeira fase Camus encontra a falta de sentido do absurdo e a morte como resposta viável e produz trabalhos como "O Estrangeiro" e "O mito de Sísifo", nos quais aborda a morte sem meias palavras, assim como a solução simples que sucede a perda do sentido e o encontro com o absurdo: se a morte é o nada e se o agora não faz sentido, porque não saltar para o nada? Assumindo então que não há nada depois, ele decide explorar as possibilidades da morte e do absurdo em "A peste" e o "Estado de sítio". O absurdo, para Camus, seria aquele estado de coisas em que a consciência chega quando se depara de forma inegável com o fato de que a vertigem na beira do abismo não vem da possibilidade de cair lá de cima, mas da possibilidade de se querer pular, do medo de não conseguir se conter e se arremessar nos braços da morte realizado. A morte de Deus para Camus exime o homem do suplício, coloca o suicídio entre as opções viáveis e incomoda profundamente. Por que suportar tudo isso? Se o mundo não anda conveniente, por que resistir? Por que não descer do bonde? Mas Camus era curioso e já sabia que as sensações são efêmeras, sempre pode-se deixar o suicídio para daqui a pouco para ver o que se sucede... Para ele, só valeria realmente a pena se o morto pudesse ir a seu próprio enterro. Então ele apoiou-se na própria revolta, no desconforto que a falta de sentido causa quando é inserida em uma vida urbana, para criar o seu sentido particular, resolvendo-se em "A queda" e "O Homem revoltado".

Camus nunca quis muito ser filósofo, mas tinha uma forte queda pelo teatro. E é assim, como em um teatro, que "a queda" expõe o coração de Jean-Baptiste Clamence em um diálogo franco com o leitor. O personagem se diz um juiz-penitente e é encontrado, por você, em um bar de marinheiros em Amsterdã. O "diálogo" conta apenas com as falas de Clamence, a outra parte cada leitor responde como pode. Mas fique avisado que não há como evitar pensar em sua argumentação, devido a esta estruturação do texto. Então, estamos lá, com um juiz-penitente, que traz na sua história uma mulher suicida, um roubo, risos e a penitência de transmiti-la através dos nove círculos do inferno. Nada demais, não é? Pelo contrário, Clamence nos sugere uma nova ética sem um ponto de apoio central e unificador. Não há mais um parâmetro de julgamento, cada um é juiz e penitente de sua própria condenação. Qual será ela? A Peste já dá a dica, quando a realidade organizada se desintegra no caos e a cidade em quarentena, lançada à própria peste, quer dizer, à própria sorte, tem de deixar-se morrer até que a infecção e o caos sedam e os sobreviventes possam retomar seus cotidianos. A cidade, abandonada pela civilização e por Deus, fica isolada e seus cidadãos precisam resolver por si mesmos, em uma situação completamente inédita, inimaginável e urgente, o que é o bem e o que é o mal dadas as atuais circunstâncias. Clamence é o homem que sobreviveu e absorveu esta ética do caos que Sartre começou a desenhar.

O absurdo, para Camus, está na multiplicidade de possibilidades. Cada um vive como sabe, como pode, do jeito que dá, mas para isso é necessário criar valores. Desde bebês que o aprendizado humano consiste em separar os eventos em satisfatórios e insatisfatórios, por isso mesmo que os valores são tão pessoais quanto as digitais. Os juizos que somos capazes de fazer a respeito das coisas dependem inteiramente de nossa vivência pessoal e aprendizado. Essa individualidade absoluta do eu, este reconhecer-se capaz de julgar apenas pelos próprios olhos, fascinava Camus. Sem Deus (nem mesmo para o povo) para unificar a ética e massificar os indivíduos, resta-nos aprender a lidar com o absurdo das individualidades. Enquanto Nietzsche punha a massa de lado, Camus vivenciou a força da população em meio ao caos. Por isto é imperativo, no raciocínio camusiano, aprender como ser santo sem deus, como assumir sobre si a responsabilidade pelo julgamento de seus próprios atos e a devida penitência por seus erros, sem que haja um elemento externo para julgá-lo. Ele concorda com Sartre quando este diz que o inferno são os outros. Sem Deus, para não matar os outros simplesmente, posto que são a origem do "mal-entendido" social, Camus resolveu sua angústia optando, de livre e espontâneo arbítrio, pela santidade sem recompensa como solução ideal. Seja bom, espalhe seu conhecimento, cumpra suas próprias sentenças e viva livre entre as liberdades alheias. Mais ou menos aquela história: "sua cabeça é o seu guia".

Então, você me pergunta, sendo assim, o que me impede de matar os outros, já que eles são o inferno? (hehe) Que cabecinha a sua, hein? Todos são livres, meu caro leitor. Já imaginou isso? É como se todos os seres humanos portassem uma arma carregada o tempo todo. Ninguém vai querer ser o primeiro a puxar o gatilho, posto que qualquer um poderá igualmente responder com fogo. A menos que seja um ser humano "estragado" que ninguém vai hesitar em riscar da existência num mundo ordenado pela decência e o bom convívio. No fim, é o inferno que me impede de puxar o gatilho, posto que o inferno É o outro. E ninguém mata um lugar-comum, não é mesmo? Não faz o menor sentido... E afinal, como a Beauvoir, mulher do Sartre, colocou bem em seu livro "Todos os homens são mortais", não é possível escapar do inferno nem sem os outros, porque o outro mora em nós também. O outro é tão fundamental para o eu que até Zaratustra precisou descer da montanha um dia. Não há existência compreensível sem o olhar do outro, pois até sozinhos levamos em conta a existência dos outros. Ser humano é ser em grupo, não é possível permanecer humano sem grupo. Fica a indicação do filme "O náufrago" para me dar suporte. Mas no fim, nos resta uma bela lição, a peste, a guerra, o Katrina, a tsunami, um asteróide, em fim, há 7 bilhões de pessoas no planeta e muitas possibilidades de encontro com o absurdo. Talvez fosse melhor nos prepararmos mesmo para sermos santos sem deus, pois até Jesus, diante do absurdo perguntou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"

Comentários

Anônimo disse…
PS.: Fiz umas pequenas edições à posteriori.
Anônimo disse…
PSS: Erros de ortografia e dados históricos conferidos. Obrigada! Aguardo mais sugestões. (Texto em construção!)

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