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USA - um império efêmero

A segunda década do século XXI tem mostrado desdobramentos muito interessantes de movimentos filosóficos cuja origem remonta ao fim da guerra fria e até antes. A implantação do american way of life encontra neste século seu ápice e consequente declínio. Largamente permeado nas culturas ocidentais e orientais, este modus vivendi determina hoje consequências peculiares em cada país onde foi assimilado e sua crise pode ser sentida por todos nós. Mas vamos com calma. Em primeiro lugar, o que é mesmo esse tal de american way of life?

A descrição da Wikipédia brasileira:

"Durante a Guerra Fria a expressão era muito utilizada pela mídia para mostrar as diferenças da qualidade de vida entre as populações dos blocos capitalista e socialista. Naquela época, a cultura popular americana abraçava a idéia de que qualquer indivíduo, independente das circunstâncias de sua vida no passado, poderia aumentar significativamente a qualidade de sua vida no futuro através de determinação, trabalho duro e habilidade. Politicamente, o American way acredita na crença da "superioridade" da democracia dita livre, fundada num mercado de trabalho competitivo sem limites."

Um pouco de história da Europa iluminista para entender o mundo:

Quando surgiu, no século XVII, o Iluminismo estabeleceu algumas palavras inéditas até então na história da cultura humana: liberdade, igualdade e fraternidade. Idéias tão à frente de seu tempo, que se desdobraram em horrorosas consequências para a raça humana como um todo. Até então, não havia igualdade: havia nobres divinizados, reis adolescentes (deuses não-oniscientes), clero (deuses oniscientes), plebe (escravos com cama) e escravos (quase bois, mas dava para espancar mais). Até então, não havia liberdade: havia um terrível peso legal das forças espirituais punindo qualquer pensamento revolucionário com tortura, masmorra, esquartejamento e inferno, muito inferno. E a fraternidade, bem, a fraternidade já existia, e continuou ilesa até que a revolução industrial transformou tudo em sindicato, pois as organizações de iguais, revolucionários ou não, sempre definiu as classes nas sociedades humanas. Somos uma espécie que se identifica, que se sente confortável entre iguais. Somos naturalmente fraternais. Mas quando isto vira um conceito iluminista o natural desanda e as classes se enrijecem nas categorias. Alguns são sempre mais iguais que as outras.

Mas e o american way? Na mesma época em que a europa cozinhava o iluminismo e a revolução francesa, do outro lado do Atlântico a independência dos EUA tornava-se um sentimento cada vez mais forte, mas seus pensadores precisavam ainda de um ideal que mobilizasse os americanos. Liberdade, longe das amarras medievais européias e igualdade entre burgueses e nobres, todos colonos em novas terras, lado a lado pela independência! Daí para a frente o mundo foi assolado por guerras. A supremacia do ideal incitou guerras de independência pelo mundo afora, enquanto Napoleão tentava ampliar seus recursos e espaço dentro de casa mesmo, deixando a Europa fragilizada por todos os lados. A confusão foi tão grande, que a primeira guerra mundial não foi suficiente para reorganizar as coisas.

A moralidade no século das grandes guerras:

Os conceitos cada vez mais sublimes que o pensamento idealista permitia, começaram a fugir do controle. A moral católica, que sustentou o mundo por mais de mil anos, já não conseguia explicar e confortar as pessoas, diante da realidade que nascia: o mundo da tecnologia bélica! O poder militar sobrepôs-se ao poder divino numa realidade guerrilheira e sanguinária. Criou-se um mundo de horrores da guerra, que a ideologia religiosa já não conseguia apaziguar com eficácia. Esta crise da moralidade, que o catolicismo promoveu por séculos com seus rompantes de violência excessiva ou devassidão, conforme o Papa da hora, misturada ao idealismo que vinha sobrepujando o pensamento mágico medieval e o horror de quase 200 anos de guerra por todo canto, criou espaço para uma nova resposta, mais leve, mais encantadora e mais condizente com os novos desejos da sociedade humana moderna. Pouco a pouco as guerras criaram sentimentos fraternais de patriotismo. A independência de várias colônias enfraqueciam a riqueza européia, que também optou por fechar-se em nacionalismos protecionistas. Surgiram grandes movimentos patrióticos, dentre os quais o mais mal-interpretado é o nazi-fascismo. Os povos começavam a identificar-se como nações e queriam ascender ao poder como unidades soberanas, através do poderio bélico. A destruição óbvia que adveio desta terrível decisão de nossa espécie, culminou nas bombas nucleares no Japão e o enriquecimento definitivo dos EUA e da Rússia, cujos territórios não foram gravemente afetados pela guerra e além disso, tinham bombas, muitas bombas e não tinham medo de usá-las!

A guerra fria, ou como sustentar por longos anos uma guerra inexistente:

O patriotismo crescente, somado à polarização do mundo na guerra fria e as descobertas publicitárias de Mussolini e Hitler, permitiram a ampla divulgação e o fortalecimento do estilo de vida americano dentro dos EUA. Yes, we can! A hegemonia americana se fortalece na corrida bélica e espacial e os avanços tecnológicos inundam a vida com milagres e facilidades. A medicina se desenvolve, as comunicações, as aeronaves, tudo vai de vento em popa, apenas com uma pedrinha no sapato: a constante eminência de uma guerra nuclear e a destruição total do planeta! Você pode imaginar isto? Então pare um momento, porque isto é muito importante! 

Para garantir a identificação dos americanos com o interesse de seus "governantes" era preciso garantir a existência de um mal encarnado em alguma figura real, como os russos, ou depois, os terroristas. O país, desde a guerra da Coréia em 1950, se metia em tudo quanto é guerrinha local, sob a pretensão de impedir o avanço do comunismo. A julgar pela demonstração de pirotecnia fantástica que foi a guerra do Vietnã em 75, pode-se dizer que eles tinham muito para gastar. O consumo foi estimulado para garantir a movimentação do dinheiro e sustentar a produção bélica, mesmo num período onde não havia nenhuma guerra que realmente justificasse tamanha produção. Era importante fortalecer a moda, a venda de veículos e os imóveis, para garantir a rotatividade monetária. Mas como fazer isto num país onde todos já tinham suas casas, roupas e bens primários?

A moda, os espiões e a sociedade de controle:

Lançando mão do idealismo e da publicidade surge então a casa no subúrbio, com jardim e quintal gramados, uma linda esposa e filhos bem penteados e comportados. Tudo isso devidamente vigiado pelas guardiãs da moral e dos bons costumes: as esposas velhas, que já não são mais bonitas. Tem uma em cada rua de subúrbio americano! Qualquer movimento suspeito e você pode ser acusado. Não mais de bruxaria, claro que não! De espionagem! Entendeu a necessidade do inimigo à espreita? Ele insere a vizinha chata na sociedade, dá a ela sua cota de realização pessoal e garante a ordem na vizinhança sem desvio de recursos, estruturando uma sociedade de controle muito bem vigiada e antes mesmo da invenção das câmeras de vigilância. É imperativo ser americano! Filmes, propagandas, grandes desfiles, é a era de ouro da "América".

Ninguém quer ser pego no pulo e para isso as esposas investem pesado nas revistas femininas,  para vestir e decorar tudo igual, para saber qual é o padrão aceito no momento, para nunca fugir à regra. Nas escolas, o bulling também tornou-se cada vez mais comum e aceitável, surgem os tempos da brilhantina. A beleza americana precisava ser mantida a qualquer custo e neste quadro não há espaço para diferentes e esquisitos, pois o estilo de vida americano depende diretamente da existência de um "loser", um párea, a partir do qual a comparação é sempre positiva. É a ameaça de perder o que se tem (a liberdade, o poder aquisitivo, a identificação) que reforçará o comportamento compulsivo do consumo, pois a moda, o estilo, é variável e não pode estancar jamais. No entanto, não se deve jamais destoar da multidão! Mais tarde os filhos destes jovens da  brilhantina estariam enlouquecendo na convulsão coletiva do Woodstock, seguindo Charles Manson em seus delírios divinos, lutando por direitos, queimando sutiãs, disseminando o HIV ou morrendo de overdose ou na guerra.

A síndrome do Vietnã:

A guerra do Vietnã, como já foi amplamente retratada em vários filmes sobre o tema, trouxe grandes baixas para os americanos. O retorno das tropas cunhou um novo sentido para a palavra "veterano", que agora tomava um aspecto mais psicotizado, dilacerado e derrotado do que nunca. Os filhos dos primórdios do american way já haviam sido massacrados em sua liberdade para desenvolver-se com sistemas de ensino rigorosos, etiquetas absurdas, rigor autoritário dentro do seio familiar (como bem mostra o filme The Wall, do Pink Floyd) e agora, ao chegar na idade adulta, foram enviados aos montes para uma terra estranha, com um clima incompreensível, só para voltarem apenas aos pedaços. Enquanto isso, os que não foram se engajavam em protestos e fraternidades das mais variadas, procurando algo em que se apoiar enformas de se protegerem dessa bizarra versão da caça às bruxas. Diante desta realidade extremamente incerta, o povo americano começou a duvidar da eficácia de suas guerras no exterior, se indispondo a envolver seus jovens neste tipo de ação por um bom tempo.

As ditaduras da América Latina e do mundo:

Com a guerra fria chegando a um clímax os EUA precisam garantir o apoio do mundo, pois não é possível sustentar sua produção bélica sem guerras e eles estão chegando ao limite. Os americanos começam a apoiar várias ditaduras por toda a América Latina, Oriente Médio e África, afim de garantir a hegemonia dos interesses americanos no mundo e sua balança comercial sempre em superávit. Esta dominação militar da América Latina permitiu aos EUA varrer do continente a ameaça comunista, eliminar focos de insurgência e controlar tudo bem de perto. No Oriente Médio, desde 1979, com a invasão dos russos ao Afeganistão, os EUA fortaleceram o Talliban com treinamento militar e armas para resistir à ameaça comunista e garantir um ponto geográfico importante para o caso de uma guerra efetiva, ou pelo menos, era essa a desculpa. Com sorte, a URSS chega à bancarrota antes dos EUA e implode sozinha em guerras internas separatistas a partir de 1991, que duram até o final do séc. XX. Com essa reviravolta histórica e as ditaduras capitalistas implementadas ao redor do globo por décadas, o estilo de vida americano dá um novo salto: exportar-se pelo mundo e conquistar mercado. Vender o american way significa nada mais que empurrar os produtos americanos para o mundo como os melhores e mais desejáveis. Mas para que isto seja plenamente possível, o mundo deve desejar o que os americanos desejam, eles precisam desejar ser americanos.

A conquista do Brasil:

Na década de 80 nossa economia beirava a falência. A ditadura militar, após 20 anos no poder, exauriu os recursos econômicos do país com corrupções que o brasileiro de hoje com 20 anos ou menos, jamais seria capaz de imaginar. Funcionários fantasmas inflavam a folha de pagamento do funcionalismo público gerando quase nada de retorno para a população. Policiais matavam todos os "espiões comunistas" forçando uma adequação do comportamento ao padrão, não pela ameaça da bomba, mas do cacetete. A crença no contrato social estava por um fio com o desemprego, o analfabetismo, a inflação e a crise dos preços destruindo o amor do brasileiro pelo país. Quando eis que surge o american way dizendo que você, cidadão, é responsável pelo seu estado. Você, cidadão, deve levantar-se e lutar por emprego. Estude mais, aprenda inglês, renove-se! Já não era preciso manter a dispendiosa ditadura e os jovens foram incitados a gritar por diretas já!, a maior palhaçada da democracia brasileira. Milhões de candidatos a presidente, ninguém sabia onde estava se metendo e um bando de brasileiros exercendo cidadania nenhuma, elegendo o candidato Collor para mais bonito, quer dizer, para presidente!

Quando o Collor assumiu, o Estado que já tinha o Sarney metido desde o início da ditadura, toda aquela corrupção desenfreada borbulhou e derramou da panela política. Nossa elite "raiz" cortou muitas cabeças para pegar Collor, mas o principal ele fez: abriu nossos portos para os americanos nos invadirem com seus lindos produtos de curta duração. Quem é mais velho vai se lembrar que um tênis anterior à década de 90 durava pelo menos 10 anos mais que um tênis posterior à época. O mesmo vale para praticamente tudo o que se comprava. Roupas com escritos em inglês, aparelhos com manuais em inglês, computador em inglês, música, filmes... A computação invadia a burocracia e forçava as pessoas a americanizarem-se até para continuar trabalhando. A responsabilidade foi depositada no cidadão que deveria correr atrás, para adequar-se aos padrões que a new age impunha. E então, finalmente, a TV a cabo!!! Agora somos todos americanos! O Collor foi-se, para depois voltar, veio o Itamar, veio o plano Real e o Fernando Henrique e os EUA fizeram do Brasil seu quintal. A cultura pop tomou conta das baladas, o cinema brasileiro quase desapareceu, sobrando apenas uns poucos filmes da Xuxa ou dos Trapalhões e pensar o custo das coisas em dólar se tornou um hábito. Nossa cultura quase foi varrida do mapa!

A corrida pelo mercado:

Na década de 90 os EUA precisavam desesperadamente encontrar novos inimigos para dar vazão à sua produção bélica. O desmantelamento da URSS trouxe consigo um mercado novo, até então para além das fronteiras do capitalismo. O filme "Adeus, Lênin" retrata bem como foi a entrada do capitalismo nos países comunistas com o fim da guerra fria. Os americanos aproveitaram-se das rixas separatistas dos países da URSS, para inundar seus mercados com coca-colas e calças jeans. A música e o cinema americanos foram exportados pelo mundo, disseminando o novo e melhorado modo de vida americano por todo o planeta. A identificação foi tão forte que com o passar dos anos vimos vários conceitos e padrões da nossa cultura serem simplesmente substituídos pelos valores americanos. Aqui no Brasil, em grande parte, esta americanização foi favorecida pela descrença no contrato social, causada pela ditadura, mas esta não era a única forma dos americanos invadirem outros países.

O Oriente Médio e o petróleo:

Mas porque optar pela guerra em países tão distantes? A década de 70 foi marcada por um desenvolvimento intenso da indústria americana. O petróleo tornava-se cada vez mais fundamental ao funcionamento do país e um apoio mal elaborado a Israel na guerra de Yom Kipur, em 73, mostrou ao mundo árabe o ponto fraco da economia americana, colocando-os nas mãos dos países produtores de petróleo. Já nessa época os americanos eram o maior consumidor de petróleo do mundo. Tanto em 73 quanto em 79 os líderes muçulmanos conseguiram atingir gravemente a economia americana retaliando suas interferências com o aumento do preço do barril de petróleo. Este poder na mão dos muçulmanos era o único argumento que movia ainda os americanos para a guerra desde a síndrome do Vietnã em 75.

Na década de 80 os EUA se envolveram direta ou indiretamente em praticamente todos os conflitos mundiais. Havia por trás disto uma forte política de domínio econômico capitalista. Mas particularmente no oriente médio a cultura americana não facilitava a dominação. O mundo muçulmano, acostumado a combater o cristianismo desde que surgiu, parecia, e parece até hoje, impenetrável aos valores ocidentais. A forma de dominação teria que ser militar, pois a cultural não serviria aqui para garantir a credibilidade e duração de uma aliança com viés colonialista com os donos do petróleo. Nesta época teve início uma sucessão de tentativas de dominação do Oriente Médio através do apoio, ora a uma, ora a outra soberania muçulmana, mas nenhuma até agora mostrou-se suficientemente confiável, a ponto de tirar os americanos da posição de reféns do petróleo. Este tipo de intervenção, entretanto, só fortaleceu a unidade muçulmana e, tanto americanos, quanto europeus, viram-se, a partir do final da década de 90 diante, de um antigo problema europeu medieval: a invasão da cultura muçulmana.

E finalmente a bomba de 2001 e a guerra ao terror:

No ápice de sua febre consumista, aquela paranóia do inimigo à espreita finalmente desabou sobre a cabeça dos americanos. No dia 11 de setembro de 2001 criando uma reação inimaginável que mudou novamente o rumo da história, os muçulmanos finalmente contra-atacam os EUA dentro de seu próprio território. Os EUA, que já sofriam muito antes que nós com o excesso de carros na rua e meios de produção totalmente dependentes de combustível fóssil, seguindo ainda sua filosofia bélica, aproveitou o ataque e atolou-se até o pescoço em contratos armamentistas e guerras no exterior perseguindo novos velhos inimigos imaginários agora encarnados na figura do terrorista em uma tentativa radical e extremamente dispendiosa de conquistar novos poços de petróleo. Este erro de cálculo, este excesso de ganância de apenas um Bush, fez com que depositassem sua confiança excessivamente na indústria bélica e na cultura do inimigo à espreita e perdessem o compasso da história. O medo transformou-se em fundamentalismo e o americano incorporou à sua cultura a postura protestante da condenação tornando-se um tanto intransigente em seus interesses. Os europeus, fiéis aliados dos americanos, apoiam suas guerras e afundam igualmente em imensas despesas ao mesmo tempo em que são invadidos por muçulmanos "foragidos" trazendo consigo sua cultura. Os americanos desabam num consumismo surreal sustentado basicamente por meios de produção dependentes de combustível fóssil em sua antiga tática para gerar dinheiro para financiar suas intermináveis guerras, pela conquista de mais combustível fóssil. A população começa a adoecer e emburrecer, o bulling ganha uma dimensão cada vez mais absurda, com crianças atirando umas nas outras em escolas, as famílias desmantelando-se em estranhos padrões de comportamento e o empobrecimento do país com as guerras não permite ao governo investirem soluções nestas áreas com tantas tropas no exterior. Os americanos começam a entrar num beco sem saída.

A tecnologia, o consumismo e o crédito, novas diretrizes mundiais:

Os avanços tecnológicos resvalavam por todos os lados no resto do planeta desde a guerra fria. A medicina desenvolveu-se absurdamente, a compreensão do universo, a biologia, a climatologia, enfim, a computadorização fez o mundo investir no conhecimento mais do que na guerra e o foco foi pouco a pouco mudando. Prova disso? Compare o número de jovens das classes d e e que aspiram a um curso superior hoje e na década de 80, por exemplo (este movimento é oposto ao do americano médio para quem a escola está perdendo o sentido). A mão de obra braçal está cada vez mais próxima de ser substituída pela robótica e a massa ignorante vem perdendo função. A corrida espacial ganhou força outra vez e novos membros, enquanto os EUA ficaram sem dinheiro para substituir seu único veículo para viagens espaciais. Os conhecimentos foram migrando para outros países enquanto os EUA reforçavam leis conservadoras barrando os avanços da ciência dentro de casa, restringindo a imigração e a importação e reforçando movimentos fundamentalistas e patrióticos para sustentar sua política intervencionista no exterior. Esta nova postura cria um sentimento anti-americano no mundo e novas nações começam a se destacar na diplomacia e economia mundial.

Com tanto consumo, com tanto desperdício, obviamente chegaríamos a um impasse. Desde a Eco-92 que o mundo discute ativamente a necessidade de se adequar aos limites de recursos do planeta. Aqui no Brasil vimos a prefeita de São Paulo criar uma taxa de recolhimento de lixo devido ao aumento dos gastos públicos com o desperdício do paulistano. Vimos mais recentemente as sacolas plásticas serem substituídas por sacolas biodegradáveis e vários problemas surgindo em lixões e no sistema de drenagem das águas de chuva das cidades grandes. Vimos racionamentos de luz. Vimos aumento das denúncias de desmatamento ilegal e tráfico de animais. Enfim, nós e muitos outros estamos procurando alternativas e soluções inteligentes para fugir do embate com a natureza. Mas os americanos não. Eles foram contra o tratado de Kioto, não querem reduzir suas emissões de carbono, ou adotar políticas "verdes" e com isso seu carisma cai ainda mais no ambiente internacional. A política americana determina o consumismo como base da economia e a partir do início do séc. XXI vimos a qualidade dos produtos americanos cair ainda mais em prol do aumento da produtividade e da oferta. Os produtos dobram seus tamanhos e diminuem sua eficácia. Enormes carros de 5.000 dólares andam 4 km por litro de gasolina a 300km/h nos EUA. E para sustentar tudo isto os americanos embarcam em um sistema de crédito baseado em hipotecas de imóveis. Um amplo movimento de especulação imobiliária assola a economia americana. Chegamos então à crise imobiliária americana, ou crise dos banqueiros.

A crise do lixo, imobiliária e dos banqueiros é a mesma. O que ocorre é apenas uma divergência quanto à escolha do momento histórico em que tudo começou. Para mim tudo começou com um montão de lixo sem lugar para ficar e uma pilha enorme de pneus queimados. A produção americana chegou a um tal ponto nos anos 2000 que já não se sustentava mais. Era necessário descartar um bem rápido demais para dar vazão ao próximo no mercado. Os preços caíram e quem já tinha um foi acostumando-se à idéia de ter 2 ou 3 de um mesmo bem só porque é barato demais para não comprar. O americano foi se entupindo de coisas e dívidas em nome do status e a história começou a ficar meio ridícula. Hoje tudo está disponível nas prateleiras do mercado, mas nada tem mais muito gosto, nada preenche as expectativas como antes. Então uma filosofia quase advinda do uso de crack surgiu no meio americano, se não preencheu, compre outro. Algum dia você vai achar algo que te complete. E para sustentar este comportamento a oferta é imensa. Tão grande que mal faz sentido. A oferta de carros novos movidos a gasolina, por exemplo, inundou os mercados no mundo inteiro à beira de uma revolução na tecnologia dos combustíveis para veículos automotivos domésticos. A oferta foi tão grande que cidades do mundo inteiro estão revendo sua malha rodoviário e sistema de transporte para comportar o novo fluxo de indivíduos motorizados. Mas a esta altura Bush filho calculava já ter a posse de vários poços de petróleo e isto não aconteceu.

Sonho e derrocada do império:

O investimento prioritário em guerras durante mais de 70 anos finalmente mostrou suas consequências mais devastadoras. O erro de Bush fez o dinheiro americano escoar como água para o exterior. A falta de investimento em modernização das indústrias e a própria noção de que o consumo movimentaria dinheiro suficiente para manter tanta guerra afundou a população em dívidas de hipoteca sobre hipoteca, os poços de petróleo barato não vieram e os bancos finalmente ficaram sem ter de onde tirar mais dinheiro. A população americana, acostumada a comprar muito, com o fim do governo de Bush filho, foi à bancarrota. Hoje, em 2012, o povo americano já não tem mais grande poder aquisitivo, não tem mais tanto apoio internacional, não tem saúde pública, tem escolas completamente dilapidadas, um sistema de ensino completamente desacreditado, uma população extremamente obesa, uma infância completamente desregrada, intolerante e ignorante, um crescimento de movimentos fundamentalistas, e uma população e cultura bem empobrecidas como um todo. Cada vez menos conhecimento é produzido nos EUA e consequentemente menos produtos serão desenvolvidos. O excesso de investimento na indústria bélica e a liberação de crédito excessivo sem o retorno esperado com a conquista de poços de petróleo no Oriente Médio foi um passo em falso dos banqueiros americanos. Acredito que eles realmente contavam com um retorno significativo em petróleo que não ocorreu e fez ruir toda a estrutura econômica americana que já vivia há algum tempo de especulações.

Dólar, a âncora européia:

Tentando reequilibrar as coisas a Europa acabou sendo arrastada pela marolinha que chegou aqui no Brasil no final do governo Lula. Me parece até meio irremediável que também o velho mundo desabe. A atual população do planeta não tem como se manter por muito tempo nos moldes do consumismo americano sustentado pelo mercado europeu até hoje. Europa e EUA caminham juntos seu caminho de decadência. Se por um lado os americanos ficaram sem dólares e sem cultura, por outro a europa novamente está sendo invadida pelo mundo muçulmano. A era do combate ao terror apenas reforçou o fundamentalismo religioso ao redor do globo e onde há radicalismo religioso, há sempre morte de inocentes. A demanda de aparências que o estilo de vida americano impôs ao mundo, ao chegar na união européia trouxe consigo certos desequilíbrios. Os povos mais pobres da união não conseguiram acompanhar os passos dos mais ricos, mas não se livraram da pressão para se manter com o título de 1° mundo. Esta pressão parece ter impulsionado os europeus, que têm tradição em status, a investir nas aparências de uma economia de ponta, quando na verdade estava tudo aos farrapos. Com a queda do dólar e a crise imobiliária dos EUA os bancos europeus também são forçados a reconhecer que também viviam de especulação e que seu dinheiro não era real. Os países mais pobre, obviamente, são os primeiros a clamar por ajuda e daí para frente todas as medidas que vêem sendo tomadas no sentido de manter a União Européia parecem mais caminhar para desmantelá-la.

Velhos hábitos nunca morrem:

E então é chegada uma hora decisiva na história mundial. Por um lado temos a Europa com sua velha ladainha de que precisamos pagar-lhe o quinto porque... ahn... porque... Ah... E nós, brasileiro, do outro lado, estamos vendo novamente a chegada dos galegos com seus espelhinho brilhantes escondendo seu desespero por mais recursos. Aguardo ansiosa pelo dia em que poderei narrar nossa decisão. Daremos nosso ouro em espelhinhos da vaidade novamente? Ou será que desta vez saberemos a grande fortuna sobre a qual estamos sentados e mandaremos o velho mundo de volta para o norte onde as intempéries do aquecimento global serão muito mais marcantes? Estudar a história pode nos livrar de repetir muitos erros. Depois do período áureo do império mais efêmero que o mundo já viu, nos vemos outra vez em um lugar comum na história do mundo: o velho mundo sem recursos. Outra vez o mundo árabe está invadindo a europa. Outra vez as colônias estão rompendo com os monopólios comerciais com o velho mundo e aventurando-se em mercados alternativos. E mais uma vez a Europa quer convencer o mundo de que a falência deles é a nossa falência.

O Brasil,  o estilo de vida verde e a mentalidade de colônia:

O Brasil foi colonizado através do massacre moral de sua população. Não é incomum encontrar brasileiro que sonha "voltar" para a europa. A ditadura reforçou em muito esta ausência de patriotismo do brasileiro e como os padres já haviam nos ensinado a não questionar demais, abaixamos a cabeça. Mas apesar de muito brasileiro reclamar, o Brasil do Lula e da Dilma tomou sim decisões internacionais muito importantes. Agora somos grande e temos voz no mundo inteiro. Somos uma representação diplomática forte no exterior. O Brasil encontra-se em uma posição privilegiada em meio a esta confusão toda. Resta saber se teremos auto-estima suficiente para nos afirmar como nação soberana e por ordem neste muquifo nacional! O brasileiro tem o hábito de achar que só aqui tem corrupção, mas isso é uma bobagem disparatada. Foi graças à corrupção e à máfia armamentista que os EUA mal conseguiram se sustentar por 70 anos como potência mundial e estão sendo obrigados, ainda hoje, a continuar se afundando em dívidas para pagar seus contratos, enquanto nós, com nossos Sarneys e Malufs, crescemos sem parar desde o Collor, apesar de todos os pesares da economia mundial. Dos países de ocidente nós somos um dos mais promissores atualmente.

É aqui que entra uma questão fundamental: o criativo brasileiro não parece ter maldade, quer correr sem ter aprendido a andar. Muitos detalhes do estilo de vida brasileiro casam bem com a vida sustentável que o futuro espera "inventar", mas nossa fragilidade histórica não permite que reconheçamos as coisas boas que produzimos, então, entregamos nosso ouro pelos espelhinhos brilhantes, matéria-prima por produto industrializado, somos roubados pelos amigos do rei mas ficamos felizes com uma esmolinha mensal para pagar o quentão na quermesse. Nossa elite anseia por repetir os mesmos erros que afundaram as grandes potências, nosso povo, afoito, continua no cabresto acreditando que são ósculos escuros, última moda na Europa! E os experientes impérios internacionais se aproveitam de tudo isso, lançando mitos, minando nossa confiança, enfraquecendo nossa economia, manipulando processos políticos e muitos etc. mais. 


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